terça-feira, 31 de março de 2015

Ente, pra quê te quero?

Um colega meu sempre dizia que tudo que termina em ente é ruim ou dá trabalho. Aí começava: gerente, cliente, parente... Entusiasmada com o seu bom humor, eu continuava a lista: paciente, demente, dor de dente, serpente, reincidente, absorvente, doente, cadente, oponente... Sabemos que há inúmeras palavras que caracterizariam essa regra. Todavia, hoje vim falar de uma em especial: crente.

Perdoem-me meus amigos evangélicos, vocês sabem que eu os amo demais, mas há uns tipos de crente que têm o dom. O dom de ser inconveniente. É preciso falar de Jesus? Sim, é! Ele está voltando? Sim, está! Só que eu peço uma coisa, uma coisinha só, bem pititiquinha... Não me evangelize domingo à tarde depois do almoço. (suspiro)

Domingo é aquele dia preguiçoso, né? Em que deixamos o ócio tomar conta de nós. Ao menos, eu não me sinto obrigada a ser produtiva no domingo. Pois bem. Meu filho e eu saímos para almoçar. Comi como uma clériga, tomei minha cervejinha, um docinho pra rebater e zarpamos para casa. Meu filho foi logo tomando seu posto diante da tevê e eu, no quarto, tratei de tirar aquela roupa quente e ficar como vim ao mundo... estirada na cama... olhinhos fechados até o soninho de domingo chegar... Morpheu e eu já estávamos nos flertando... quando abruptamente (olha o ente aí de novo!), insanamente o interfone toca! 

Peço a Morpheu que me espere, vou à cozinha atender ao bendito interfone, com a educação que me é habitual ao acordar:
_Hum... Quem é?
_A senhora pode vir aqui no portão um minutinho?
_Quem quer falar comigo?
_A sua vizinha.
Pensei o que raios a vizinha poderia querer comigo àquela hora. Entretanto, cogitei a possibilidade de ela estar precisando de ajuda.
_Aguarda um pouquinho.

Volto para o quarto apressada para vestir a roupa e abrir o portão para a vizinha necessitada. Talvez alguma emergência na casa dela ou algum aviso importante. Recomposta como manda a civilização, fui abrir o portão, encontro uma mocinha de uns 16 anos com outra de mesma idade. Se era alguma vizinha deveria ser de várias casas para cima ou para baixo no quarteirão, porque nunca a havia visto antes.

_Boa tarde! Tudo bem? Estamos passando aqui pra deixar esse folheto com a senhora. A senhora é evangélica?
_Não... - respondo desolada ao perceber do que se tratava.
_Então, a senhora precisa se preparar porque Jesus está voltando!

Você, que está aí do outro lado me lendo, certamente achou um pouco de graça não é mesmo? Consegue imaginar a minha cara? Consegue imaginar qual foi a minha reação? O que se passou pela minha mente? Pois vou lhe dizer:

_Olha aqui sua pirralha vadia! Isso são horas de amolar as pessoas em suas casas?!! Eu não quero saber quem tá voltando! Não sabia nem que tinha ido! Eu só sei que eu estava de boa, pelada na minha cama, começando a dormir, depois de ter comido e bebido horrores e você me atrapalhou! Sabe pra quê serve caixinha de correio? Para colocar papéis como esse que você fez questão que eu me vestisse e viesse até aqui abrir o portão só para pegar! Pois olhe o que eu faço com esse papel! (rasgando) E interfone? Sabia  que você poderia ter falado comigo lá de dentro mesmo?! Seus outros irmãos em Cristo fazem isso: colocam os papéis na caixa de correio e falam comigo pelo interfone! Por que? Eu quero saber, por quê você fez tanta questão da minha presença aqui, menina?!

Isso foi o que se passou pela minha mente.

_Tá certo. Obrigada. Boa tarde pra vocês. 

Isso foi o que eu respondi, levando o papel para dentro de casa.

Compreendam que não estou falando mal de quem é evangélico, muito menos da arte de evangelizar pessoas. A minha indignação vem do horário e do modo como fui abordada. É preciso ter sapiência para falar com as pessoas. Eu mesma reconheço que me faltam quilos - talvez até toneladas - delas às vezes. Mas sorte minha que falo pra dentro a maioria delas. Se algumas pessoas me julgam pelo que digo/escrevo, imagina se soubessem o que penso!

domingo, 15 de março de 2015

Good job, girl!

Sabe aqueles desenhos animados em que a personagem anda por uma estrada com dezenas de placas dizendo "não vá por aí"? Tipo, cuidado, rua sem saída, volte, eu avisei... E mesmo assim a personagem insiste em ir. Costumo dizer que é o antagonismo que move os desenhos animados, eles são permeados de coisas e situações ilógicas.

Senti-me assim hoje por um breve momento. Permita-me um breve retrospecto. Desde criança tive aptidão para a escrita, gostava de ler e inventar histórias. Quando eu era adolescente tinha muita facilidade para falar em público e apresentar pecinhas teatrais na escola. Pedi um violão de presente de 15 anos. Sempre manuseei qualquer tipo de ferramenta com destreza. Enfim, ao longo desses 29 anos tratei de aprender de tudo um pouco - dentro do que me interessa, é claro, porque sou uma negação em moda, por exemplo. E, assim, fui me tornando uma generalista. Essas pessoas que sabem de tudo um pouco e não se especializam em nada - e me sinto confortável em dizer que o jornalismo é assim também, apesar de nunca tê-lo exercido, sinto-me jornalista em minhas atitudes e posturas.

Enfim, estávamos Pedro e eu na feira hoje e havia um cara dando uma espécie de oficina de modelagem em argila. Sentamo-nos à mesa e fomos brincar. Meu filho fez cobras, xícaras, jacarés, patinhos, sapos, enquanto eu me concentrava em um coelho e um abacaxi. Fi-los com muito esmero, com cuidado no acabamento, na proporção e tudo o mais. Um momento de total relaxamento. Não demorou muito e o instrutor veio falar comigo: "Nossa, ficaram ótimos! Você leva muito jeito pra isso! Já havia feito antes?" Respondi com um pouco de vergonha que não. Nunca havia botado as mãos em argila e que levar meu filho ali foi um excelente pretexto para experimentar.

Seria uma situação trivial, se não fossem outros três elogios além desse que ouvi esse ano. Quando resolvi aprender cartonagem, a moça que estava me ensinando também disse que tenho muita habilidade nas mãos e que pouquíssimas alunas dela eram tão desenvoltas com papéis. Justifiquei que era porque eu gostava muito de brincar com papéis e colagem na infância. 

Algumas semanas depois, o maestro do coral do qual eu participo chamou-me a um canto  e disse que eu deveria estudar música, que sou afinada e tenho uma voz bonita e que seria ótimo se eu pudesse me aprimorar. Agradeci-o e confesso que fiquei vários dias com a vaidade aflorada, por ter sido elogiada por alguém como ele.

Acho que já mencionei aqui, e além de mãe, bancária, jornalista (por formação) e blogueira, também trabalho com fotografia. Entre uma foto ou outra, alguém também elogia meus cliques. Quando alguém esbarra com alguma lorota legal, também ouço um "puxa, você escreve bem". Quando distribuo as verduras e frutas que cultivo no meu quintal, me perguntam como consigo plantar e produzir coisas com tão boa qualidade.

Nobre leitor, talvez eu possa parecer uma pessoa pouco modesta e um tanto orgulhosa se me julgar pelos parágrafos acima, principalmente se você for novo por aqui. Todavia, a grande questão do meu texto vem agora, o motivo de eu tê-lo escrito e a dúvida existencial que me abate nesse momento é que NINGUÉM NUNCA BATEU NO MEU OMBRO E DISSE "VOCÊ É UMA EXCELENTE BANCÁRIA". Compreende agora? As coisas que faço por prazer me rendem louros e reconhecimento. Já no meu trabalho formal, em que trabalharei pelos próximos 21 anos, sou simplesmente medíocre, ou seja, na média. Não sobressaio nas atividades bancárias. Faço-as corretamente, mas não há esmero da minha parte, ou melhor, diria que no meu casamento com o banco há uma relação de interesses e não de amor. Sou casada com o banco, mas tenho amantes a rodo! E eles me mantém jovem, disposta e feliz.

Curioso isso, não é mesmo? Todas as placas indicam que não devo trilhar por ali, entretanto sou impelida pelo antagonismo clássico e paradoxal dos desenhos animados a permanecer na mesma rota. Mas calma, eu não vejo isso como uma coisa ruim... É estranha, mas não é ruim! É como se eu tivesse uma barreira para transpor todos os dias e isso me renova. Talvez se eu trabalhasse com algo que me dá prazer, aquilo deixasse de ser bom, entende? Será que um cara que desenvolve jogos de videogame gosta de jogá-lo aos finais de semana?

domingo, 8 de março de 2015

Meu adorável Dono de Estabelecimento Comercial

Quando Deus me projetou ele devia estar muito bem-humorado e pensou "Vou experimentar algo diferente hoje, vou fazer uma pessoa meio fora dos padrões pra ver no que dá." E eis que eu vim ao mundo: com cabelo liso e ideias enroladas dentro da cabeça.
Hoje quero falar de uma, entre muitas coisas, que acho linda. Já falei da minha queda por homens de All Star e de ternos esvoaçantes em motocicletas, mas essa semana me dei conta de uma outra coisa que também sempre me chamou a atenção, entretanto nunca havia lhe dado o devido valor. Trata-se nada mais, nada menos que Donos de Estabelecimentos Comerciais.

Quando adentramos em uma loja, normalmente somos atendidos por vendedores descompromissados, sem motivação e que, consequentemente, me fazem sair da loja menos interessada em determinado produto do que quando entrei. Todavia, às vezes, tenho a tremenda sorte de ser atendida por quem realmente entende do assunto e que quer (muito) que eu compre aquele produto. Por exemplo, quinta-feira passada entrei em uma loja de brinquedos para comprar um óculos de natação e tamanha foi minha surpresa quando passei por um homem que conversava com um cachorro! Sim, um homem de aproximadamente quarenta anos batendo o maior papo com um cãozinho de brinquedo! Fui ao final da loja, peguei os óculos e quando voltei não me contive, tive de conversar com o cachorro também. Aquela prosa entre o sujeito e o robozinho de pelúcia parecia tão interessante que quis participar. Fiz-lhe algumas perguntas, as quais ele respondeu com tanta presteza como nenhum outro cãozinho com quem conversei até hoje havia me respondido. 

Depois de "brincar" um pouco, o homem começou a conversar comigo e me explicar sobre toda essa nova tecnologia de animaizinhos inteligentes robotizados para substituir os bichinhos de estimação da garotada moderna. Nem preciso dizer, que ainda prefiro ter peixinhos à Robo Fishes. Mas a disposição do cavalheiro me atraiu de tal forma que até olhei a mão dele e ao perceber que era casado, voltei novamente a atenção para os brinquedos. Mas confesso que o All Star em seus pés me deixou meio abalada... aliança, Ana Paula! ele usa aliança! Foco no brinquedo! Foco no brinquedo!

Mas o fato é que um atendimento diferenciado faz toda a diferença no momento de atrair a atenção de um cliente, mesmo que em potencial. Até hoje o Spock  não me saiu da cabeça e tenho plena convicção que foi pelo empenho do dono da loja que me atendeu. Outra circunstância em que me senti cativada, dessa vez por uma mulher (que nem faço ideia se usava aliança ou não!), foi quando a dona de uma lanchonete resolveu me dar uma aula sobre a comida que ela vendia. Não que eu seja lá muito interessada em temperos culinários e modos de preparo da massa, contudo, ela poderia somente ter anotado minha pizza de calabresa e falado "próximo". Só que ao optar por me explicar outras coisas das quais eu nem imaginava, ela plantou a sementinha da curiosidade na minha cabeça e sim, amigo leitor, serei obrigada a voltar lá e comer o calzone à moda da casa.

Por essas e outras experiências ainda consigo ter o mínimo de satisfação em ser consumidora. Um dia escreverei uma lorota sobre alguns vendedores que já cruzaram meu caminho e daí vocês verão porque caio de amores quando sou bem atendida. Lembre-me, por favor!