terça-feira, 27 de outubro de 2015

A redenção do álcool

-Oi, sumida! Tudo jóia?
-Tudo. E você?
-É impressão minha ou você engordou um pouquinho?
-Sim, engordei uns seis quilos.


Esse diálogo foi travado entre mim e o marido de uma amiga. Para a maioria das mulheres seria motivo de ódio e tristeza alternadamente, mas para mim, essa situação - que é relativamente nova - não me incomoda (muito). Na verdade, não me incomodaria nada se a gordura recém-adquirida não se concentrasse toda na barriga. Até que uns seis quilinhos me fariam bem, se quatro deles não fossem responsáveis por aumentar meu trem de pouso abdominal substancialmente. Sim, por que eu não tenho pneuzinho, eu tenho o Boneco Michelin habitando dentro de mim e não há regime exorcista que o tire!


Deixemos essa nova condição obesa para lá e voltemos ao assunto que eu queria falar de verdade. O mercado precisa vender seus produtos, certo? E para isso, ele lança mão de diversos artifícios do mais apurado marketing para nos convencer de que precisamos mais do que tudo daquilo que estão nos vendendo. Nos deixam sem saber como nossos antepassados sobreviveram sem aquilo e não nos permitem imaginar como será nossa vida de agora em diante sem o tal produto. Marketing é fabuloso! Nessa onda, gostaria de chamar a atenção para duas coisas antagônicas que o marketing conseguiu unir: esporte e cerveja.

Ano que vem teremos Olimpíadas (desastrosa como a Copa? Não sei.) no Brasil. Reportagens sobre modalidades esportivas saltitam a todo instante em nossas tevês. O futebol já não é tanto o centro das atenções. Mas o nosso país adora uma cerveja! E a nossa cervejinha vai bem com uma picanha, com uma feijoada, petisquinhos, assistindo a uma partida de futebol e tudo isso que já estamos habituados a ver nos comerciais. Bota uma mulher pelada no meio, então, que fica tudo certo. Pois bem, esse é o quadro: homem barrigudinho, tomando cerveja, comendo, assistindo futebol, passa uma gostosa e ele faz piadinha... pode botar uma praia no meio pra dar um efeito e voilá! Está pronta nossa cultura!

Só que a Skol teve uma ousadia, nos convenceu que atletas (mesmo que ocasionais) podem, sim, consumir cerveja e continuar esbeltos. A Skol Ultra possui 25% a menos de caloria que as demais cervejas pilsen. E, pasmem, menos da metade que kcal que a Caracu. Agora, senhores e senhoras, eu posso continuar tomando cerveja sem culpa, mesmo depois de correr ou pedalar quilômetros. Meus pecados foram perdoados. Cerveja não é mais sinônimo de pessoas desleixadas, que não estão nem aí para o físico. Cerveja é saúde, minha gente! 

Assim, retomo ao marido da minha amiga. Se estou assim hoje, com seis quilos a mais, é que me faltava uma cerveja de baixa caloria na minha vida, igual à Skol Ultra que tivesse tudo a ver com prática esportiva. Hoje mesmo sucumbi à indução marketeira e comprei a minha primeira Skol Ultra. A contragosto permaneci inerte na cama assistindo seriado, porque o que eu queria mesmo era sair dali e pular corda ou pedalar até o suor escorrer. Iiiiissssaaaa!!!


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Por favor, não enfie a mão no saco!

Não gosto de reclamar em restaurantes. Tenho sempre a impressão que alguém vai me sabotar com uma bela cusparada na minha comida. Todavia, não há trollagem maior do que aquela que a gente vê ao vivo e à cores.

Eu compro pão em uma padaria cujos atendentes são muito educados e estão sempre de bom humor - talvez esse seja o motivo de eu ainda preferir comprar lá. As quitandas não guardam nada de excepcional e o preço é salgado, entretanto, o "bom dia" entusiasmado e o "tenha um excelente dia" ao sair, de certa forma me motivam. Seria corriqueira a situação se eu não travasse uma briga comigo todos os dias quando vejo o bendito homem enfiar a mão no saco! Sim! Aquele mesmo saco que em segundos abrigará meus pãezinhos franceses é primeiramente batizado com a mão do atendente que insiste em abri-lo assim antes de soltar os pães - pegos com um pegador - lá dentro.

Ora! Se ele já pôs a mão lá dentro mesmo, o que o impediria de pegar meus (argh!) pães com ela também? Para que a formalidade de um pegador? Seria como dizer que alguém que já deu o cu ainda é virgem! Perdoe-me a apelação, mas daí você tira uma base dos meus pensamentos e do meu olhar enquanto o atendente separa meu café da manhã.

Claro que já pensei em falar para ele! Mas lhe juro que não sei qual abordagem tomar. Pode ser que depois de chamar-lhes a atenção para a discrepância eu não tenha mais coragem de comprar lá. Então, não terei mais meus "bons dias", cada vez mais raros no comércio.

Lembro-me uma vez, quando fui a um pit-dog e o rapaz abriu o saquinho com a mão antes de montar meu sanduíche. Ao ver aquilo, pedi que ele pegasse outro saquinho e o abrisse com o pegador. O menino me lançou um olhar tão aborrecido e demonstrou-se tão aperreado de ter que abrir o negócio de forma não habitual, que fiquei com medo de consumir o tal lanche! Cuspir nele eu sei que ele não cuspiu, mas se existe mau-olhado no mundo... ai, papai!

Bem, mas voltando à padaria do meu bairro. Convido você, amigo leitor, a fazer um passeio descompromissado comigo até a minha panificadora e conferir com seus próprios olhos a cena. Talvez você saiba me dizer de que forma eu devo dizer a ele para não enfiar a mão no saco. Entretanto, tenho medo que depois disso, meu carismático atendente comece a abrir o saquinho de papel com um belo e forte sopro.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Atrás do próprio rabo

Quem nunca se divertiu observando um cachorro girar e girar correndo atrás do próprio rabo? Pois, olha, não tem nada de divertido nisso... ao menos para o cachorro, não.

Tenho me sentido meio cadela ultimamente. Saio obstinada atrás dos meus objetivos, mas não compreendo a razão, não consigo alcançá-los. Faço um esforço danado durante todo o dia, para cumprir alguns afazeres, entretanto sinto que aqueles que eu gostaria ou deveria mesmo realizar, não os realizei.

A frustração vem do fato de estar sempre apagando incêndios, sem tempo para construir nada. Sem um tempo só meu, ao qual eu não tenha que, por obrigações morais, sociais ou afetivas, dedicá-los a amigos, filho, pais, parentes, namorado, colegas, peixes, coelhos, casa, carro, etc.

É isso! Plantamos coisas demais e depois nos falta tempo para as colheitas que desejamos. Quero ter um quintal lindo, uma casa impecável, um filho educado, um namorado presente, meus pais próximos a mim, fazer meu trabalho corretamente, trabalhar com fotografia, fazer álbuns artesanais, escrever, ler, nadar, correr, pedalar, criar animaizinhos, sair com os amigos... Contudo, como já diz o ditado, quem tudo quer, nada tem. E fico assim, correndo atrás do meu rabo, pedindo a Deus que o dia tivesse seis horinhas a mais.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Antes só do que mal gramaticada


Conversava hoje com uma amiga e trocávamos situações bizarras de redes sociais envolvendo rapazes. Uhum, rapazes, falamos, sim, sobre vocês... Às vezes, bem... mas na maioria delas, falamos mal mesmo. Nos queixamos do quanto vocês andam acomodados, de que não se fazem mais homens como antigamente e da forma como vêm tratando as mulheres. Mas esse assunto fica para outra hora.

As redes sociais nos aproximam em alguns aspectos e nos distanciam em outros. Por exemplo, quando leio um erro grotesco de português dou um salto para trás - literalmente. E olha que são muito frequentes! Antigamente as pessoas se casavam sem saber como o outro escrevia. Hoje a nossa ortografia é nosso cartão de visita. 

Um "o que tá fazendo de bom", ou aquele "mim" antes do verbo, ou vírgulas engolidas - interrogações eu até relevo, pois eu mesmo engulo algumas... São coisinhas que me deixam levemente descrente em uma conversa. Mas há situações mais radicais:


e ai gata
vc sumiu


não, to sempre por aqui
se não estiver, pode deixar mensagem no inbox que depois eu respondo

blz
qual a sua idade


por acaso vc é recenseador do IBGE para querer saber minha idade?
que indelicadeza!

foi maus...
qual o seu zap zap


francamente? podemos parar de conversar por aqui
não converso com quem fala "zap zap"
é ridículo!


Essa situação foi descrita pela minha amiga hoje. Mas eu também tenho minhas desventuras pelo mundo das redes sociais. Tipo essa:



Sim, o diálogo se resumiu a isso. Desconfio que esse nobre rapaz tenha aparecido, assim, após nove meses de hiato, só para fazer uma pesquisa. Claro! Porque só pode ser algum tipo de atualização que ele faz com os contatos do Whatsapp de vez em quando! Deu vontade de continuar a conversa... e se tivesse prosseguido, seria mais ou menos assim:

Era só isso que você queria saber? Se eu estou solteira ou se casei? Não vai dar em cima de mim? Não vai me convidar pra sair? Só queria mesmo saber se casei?! Não! Não casei! E esse "tá certo"?Estou certa em ainda não ter me casado, é isso? Ainda faço parte do time das solteiras, coleguinha! Por que? Queria saber onde aluguei meu vestido de noiva? Ou qual buffet está mais barato? Ou simplesmente atualizar a sua agenda? Saber se já poderia excluir meu número? Pois lhe digo: pode excluir, sim, por favor. 

EPÍLOGO




segunda-feira, 6 de abril de 2015

Idiota no trânsito (e em qualquer lugar)

Frequentemente me sinto uma idiota no trânsito. Mas hoje quero falar das vezes que passo por idiota ao volante, simplesmente por me deixar levar pelos meus impulsos. Impulsos esses que já me fizeram fazer muita besteira na vida. 
(Nota mental: aprender a lidar com impulsos.)
A situação que me constrange mais no trânsito é quando alguém está dirigindo pachorrentamente à minha frente, como se o dia dele tivesse mais horas que o meu, e que, em algumas situações, eu pisco o farol para ele sair da minha frente, ou acelero forte meio que para dizer "se você não tem pressa, eu tenho". Daí, acontece que ultrapasso o tal carro lerdo, olho com cara de poucos amigos para o motorista - um bossal que não está nem ligando para a opinião alheia - e sigo adiante... acelerando envenenadamente... até que... surge um semáforo fechado. Putz!
O bossal em seu carro bossal para ao meu lado. 
De que adiantou tanta energia gasta, tanto esbravejamento, tantos pensamentos ruins? Sou mesmo uma idiota, admito!

Na vida também cometo cometia essas idiotices. Já corri atrás de coisas inúteis e depois que as alcancei tive a mesma sensação de babaquice de quando o carro lento se encosta ao lado do meu envenenado. Podia correr e enumerar várias delas, mas acho que não quero mais correr... prefiro andar lentamente, porque, afinal, os lentos também chegam.

terça-feira, 31 de março de 2015

Ente, pra quê te quero?

Um colega meu sempre dizia que tudo que termina em ente é ruim ou dá trabalho. Aí começava: gerente, cliente, parente... Entusiasmada com o seu bom humor, eu continuava a lista: paciente, demente, dor de dente, serpente, reincidente, absorvente, doente, cadente, oponente... Sabemos que há inúmeras palavras que caracterizariam essa regra. Todavia, hoje vim falar de uma em especial: crente.

Perdoem-me meus amigos evangélicos, vocês sabem que eu os amo demais, mas há uns tipos de crente que têm o dom. O dom de ser inconveniente. É preciso falar de Jesus? Sim, é! Ele está voltando? Sim, está! Só que eu peço uma coisa, uma coisinha só, bem pititiquinha... Não me evangelize domingo à tarde depois do almoço. (suspiro)

Domingo é aquele dia preguiçoso, né? Em que deixamos o ócio tomar conta de nós. Ao menos, eu não me sinto obrigada a ser produtiva no domingo. Pois bem. Meu filho e eu saímos para almoçar. Comi como uma clériga, tomei minha cervejinha, um docinho pra rebater e zarpamos para casa. Meu filho foi logo tomando seu posto diante da tevê e eu, no quarto, tratei de tirar aquela roupa quente e ficar como vim ao mundo... estirada na cama... olhinhos fechados até o soninho de domingo chegar... Morpheu e eu já estávamos nos flertando... quando abruptamente (olha o ente aí de novo!), insanamente o interfone toca! 

Peço a Morpheu que me espere, vou à cozinha atender ao bendito interfone, com a educação que me é habitual ao acordar:
_Hum... Quem é?
_A senhora pode vir aqui no portão um minutinho?
_Quem quer falar comigo?
_A sua vizinha.
Pensei o que raios a vizinha poderia querer comigo àquela hora. Entretanto, cogitei a possibilidade de ela estar precisando de ajuda.
_Aguarda um pouquinho.

Volto para o quarto apressada para vestir a roupa e abrir o portão para a vizinha necessitada. Talvez alguma emergência na casa dela ou algum aviso importante. Recomposta como manda a civilização, fui abrir o portão, encontro uma mocinha de uns 16 anos com outra de mesma idade. Se era alguma vizinha deveria ser de várias casas para cima ou para baixo no quarteirão, porque nunca a havia visto antes.

_Boa tarde! Tudo bem? Estamos passando aqui pra deixar esse folheto com a senhora. A senhora é evangélica?
_Não... - respondo desolada ao perceber do que se tratava.
_Então, a senhora precisa se preparar porque Jesus está voltando!

Você, que está aí do outro lado me lendo, certamente achou um pouco de graça não é mesmo? Consegue imaginar a minha cara? Consegue imaginar qual foi a minha reação? O que se passou pela minha mente? Pois vou lhe dizer:

_Olha aqui sua pirralha vadia! Isso são horas de amolar as pessoas em suas casas?!! Eu não quero saber quem tá voltando! Não sabia nem que tinha ido! Eu só sei que eu estava de boa, pelada na minha cama, começando a dormir, depois de ter comido e bebido horrores e você me atrapalhou! Sabe pra quê serve caixinha de correio? Para colocar papéis como esse que você fez questão que eu me vestisse e viesse até aqui abrir o portão só para pegar! Pois olhe o que eu faço com esse papel! (rasgando) E interfone? Sabia  que você poderia ter falado comigo lá de dentro mesmo?! Seus outros irmãos em Cristo fazem isso: colocam os papéis na caixa de correio e falam comigo pelo interfone! Por que? Eu quero saber, por quê você fez tanta questão da minha presença aqui, menina?!

Isso foi o que se passou pela minha mente.

_Tá certo. Obrigada. Boa tarde pra vocês. 

Isso foi o que eu respondi, levando o papel para dentro de casa.

Compreendam que não estou falando mal de quem é evangélico, muito menos da arte de evangelizar pessoas. A minha indignação vem do horário e do modo como fui abordada. É preciso ter sapiência para falar com as pessoas. Eu mesma reconheço que me faltam quilos - talvez até toneladas - delas às vezes. Mas sorte minha que falo pra dentro a maioria delas. Se algumas pessoas me julgam pelo que digo/escrevo, imagina se soubessem o que penso!

domingo, 15 de março de 2015

Good job, girl!

Sabe aqueles desenhos animados em que a personagem anda por uma estrada com dezenas de placas dizendo "não vá por aí"? Tipo, cuidado, rua sem saída, volte, eu avisei... E mesmo assim a personagem insiste em ir. Costumo dizer que é o antagonismo que move os desenhos animados, eles são permeados de coisas e situações ilógicas.

Senti-me assim hoje por um breve momento. Permita-me um breve retrospecto. Desde criança tive aptidão para a escrita, gostava de ler e inventar histórias. Quando eu era adolescente tinha muita facilidade para falar em público e apresentar pecinhas teatrais na escola. Pedi um violão de presente de 15 anos. Sempre manuseei qualquer tipo de ferramenta com destreza. Enfim, ao longo desses 29 anos tratei de aprender de tudo um pouco - dentro do que me interessa, é claro, porque sou uma negação em moda, por exemplo. E, assim, fui me tornando uma generalista. Essas pessoas que sabem de tudo um pouco e não se especializam em nada - e me sinto confortável em dizer que o jornalismo é assim também, apesar de nunca tê-lo exercido, sinto-me jornalista em minhas atitudes e posturas.

Enfim, estávamos Pedro e eu na feira hoje e havia um cara dando uma espécie de oficina de modelagem em argila. Sentamo-nos à mesa e fomos brincar. Meu filho fez cobras, xícaras, jacarés, patinhos, sapos, enquanto eu me concentrava em um coelho e um abacaxi. Fi-los com muito esmero, com cuidado no acabamento, na proporção e tudo o mais. Um momento de total relaxamento. Não demorou muito e o instrutor veio falar comigo: "Nossa, ficaram ótimos! Você leva muito jeito pra isso! Já havia feito antes?" Respondi com um pouco de vergonha que não. Nunca havia botado as mãos em argila e que levar meu filho ali foi um excelente pretexto para experimentar.

Seria uma situação trivial, se não fossem outros três elogios além desse que ouvi esse ano. Quando resolvi aprender cartonagem, a moça que estava me ensinando também disse que tenho muita habilidade nas mãos e que pouquíssimas alunas dela eram tão desenvoltas com papéis. Justifiquei que era porque eu gostava muito de brincar com papéis e colagem na infância. 

Algumas semanas depois, o maestro do coral do qual eu participo chamou-me a um canto  e disse que eu deveria estudar música, que sou afinada e tenho uma voz bonita e que seria ótimo se eu pudesse me aprimorar. Agradeci-o e confesso que fiquei vários dias com a vaidade aflorada, por ter sido elogiada por alguém como ele.

Acho que já mencionei aqui, e além de mãe, bancária, jornalista (por formação) e blogueira, também trabalho com fotografia. Entre uma foto ou outra, alguém também elogia meus cliques. Quando alguém esbarra com alguma lorota legal, também ouço um "puxa, você escreve bem". Quando distribuo as verduras e frutas que cultivo no meu quintal, me perguntam como consigo plantar e produzir coisas com tão boa qualidade.

Nobre leitor, talvez eu possa parecer uma pessoa pouco modesta e um tanto orgulhosa se me julgar pelos parágrafos acima, principalmente se você for novo por aqui. Todavia, a grande questão do meu texto vem agora, o motivo de eu tê-lo escrito e a dúvida existencial que me abate nesse momento é que NINGUÉM NUNCA BATEU NO MEU OMBRO E DISSE "VOCÊ É UMA EXCELENTE BANCÁRIA". Compreende agora? As coisas que faço por prazer me rendem louros e reconhecimento. Já no meu trabalho formal, em que trabalharei pelos próximos 21 anos, sou simplesmente medíocre, ou seja, na média. Não sobressaio nas atividades bancárias. Faço-as corretamente, mas não há esmero da minha parte, ou melhor, diria que no meu casamento com o banco há uma relação de interesses e não de amor. Sou casada com o banco, mas tenho amantes a rodo! E eles me mantém jovem, disposta e feliz.

Curioso isso, não é mesmo? Todas as placas indicam que não devo trilhar por ali, entretanto sou impelida pelo antagonismo clássico e paradoxal dos desenhos animados a permanecer na mesma rota. Mas calma, eu não vejo isso como uma coisa ruim... É estranha, mas não é ruim! É como se eu tivesse uma barreira para transpor todos os dias e isso me renova. Talvez se eu trabalhasse com algo que me dá prazer, aquilo deixasse de ser bom, entende? Será que um cara que desenvolve jogos de videogame gosta de jogá-lo aos finais de semana?

domingo, 8 de março de 2015

Meu adorável Dono de Estabelecimento Comercial

Quando Deus me projetou ele devia estar muito bem-humorado e pensou "Vou experimentar algo diferente hoje, vou fazer uma pessoa meio fora dos padrões pra ver no que dá." E eis que eu vim ao mundo: com cabelo liso e ideias enroladas dentro da cabeça.
Hoje quero falar de uma, entre muitas coisas, que acho linda. Já falei da minha queda por homens de All Star e de ternos esvoaçantes em motocicletas, mas essa semana me dei conta de uma outra coisa que também sempre me chamou a atenção, entretanto nunca havia lhe dado o devido valor. Trata-se nada mais, nada menos que Donos de Estabelecimentos Comerciais.

Quando adentramos em uma loja, normalmente somos atendidos por vendedores descompromissados, sem motivação e que, consequentemente, me fazem sair da loja menos interessada em determinado produto do que quando entrei. Todavia, às vezes, tenho a tremenda sorte de ser atendida por quem realmente entende do assunto e que quer (muito) que eu compre aquele produto. Por exemplo, quinta-feira passada entrei em uma loja de brinquedos para comprar um óculos de natação e tamanha foi minha surpresa quando passei por um homem que conversava com um cachorro! Sim, um homem de aproximadamente quarenta anos batendo o maior papo com um cãozinho de brinquedo! Fui ao final da loja, peguei os óculos e quando voltei não me contive, tive de conversar com o cachorro também. Aquela prosa entre o sujeito e o robozinho de pelúcia parecia tão interessante que quis participar. Fiz-lhe algumas perguntas, as quais ele respondeu com tanta presteza como nenhum outro cãozinho com quem conversei até hoje havia me respondido. 

Depois de "brincar" um pouco, o homem começou a conversar comigo e me explicar sobre toda essa nova tecnologia de animaizinhos inteligentes robotizados para substituir os bichinhos de estimação da garotada moderna. Nem preciso dizer, que ainda prefiro ter peixinhos à Robo Fishes. Mas a disposição do cavalheiro me atraiu de tal forma que até olhei a mão dele e ao perceber que era casado, voltei novamente a atenção para os brinquedos. Mas confesso que o All Star em seus pés me deixou meio abalada... aliança, Ana Paula! ele usa aliança! Foco no brinquedo! Foco no brinquedo!

Mas o fato é que um atendimento diferenciado faz toda a diferença no momento de atrair a atenção de um cliente, mesmo que em potencial. Até hoje o Spock  não me saiu da cabeça e tenho plena convicção que foi pelo empenho do dono da loja que me atendeu. Outra circunstância em que me senti cativada, dessa vez por uma mulher (que nem faço ideia se usava aliança ou não!), foi quando a dona de uma lanchonete resolveu me dar uma aula sobre a comida que ela vendia. Não que eu seja lá muito interessada em temperos culinários e modos de preparo da massa, contudo, ela poderia somente ter anotado minha pizza de calabresa e falado "próximo". Só que ao optar por me explicar outras coisas das quais eu nem imaginava, ela plantou a sementinha da curiosidade na minha cabeça e sim, amigo leitor, serei obrigada a voltar lá e comer o calzone à moda da casa.

Por essas e outras experiências ainda consigo ter o mínimo de satisfação em ser consumidora. Um dia escreverei uma lorota sobre alguns vendedores que já cruzaram meu caminho e daí vocês verão porque caio de amores quando sou bem atendida. Lembre-me, por favor!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Uva páscoa

Certa vez um colega me disse que não temos consciência da educação que damos aos nossos filhos até que alguém nos dê um feedback, do tipo, "nossa! seu filho é tão educado!". Hoje escrevo o texto para discordar do meu amigo. Sim, eu tenho noção da educação que tenho dado ao meu filho. Olha, é uma árdua tarefa de repetição, viu? Falar todos os dias a mesma coisa, a mesma coisa, a mesma coisa... Mas uma hora, quase que por um passe de mágica, você para de repetir aquilo com o passar dos dias.
-Filho, coloque o copo sobre a pia.
-Filho, onde você colocou o copo?
-Filho, por que esse copo está no sofá?
-Pedro, pegue esse copo e o coloque na pia agora!
-Filho... Ops! Não... nada não... - esse é o momento em que eu vejo que o copo está na pia.
Por essas e por outras eu ainda tenho esperança nos homens. Não há nada que a paciência e a perseverança não possa mudar.
Outra situação lindíssima em que eu pude me ver refletida e contemplei parte da minha obra-prima inacabada foi quando ele espirrou perto de mim:
-Mãe, eu espirrei! Você não vai falar nada, não?!
Tipo, ué, você não vive falando pra eu ser educado e dizer "saúde" quando as pessoas espirram? Prova de que um exemplo vale por mil palavras.
Entretanto a ideia desse texto veio ontem quando ele brincava com dois amiguinhos aqui em casa. Pedro chegou com a mão cheia de uvas passas (tive um namorado que o ensinou a fazer pequenas incursões à geladeira atrás das minhas frutinhas desidratadas):
-Meu filho, mas você pegou minhas uvas passas?!
-Mãe, eu dei um tanto assim pra cada um dos meus amiguinhos.
Na hora fiquei contrariada porque eu as estava guardando para uma farofa, mas depois me dei conta do tremendo salto na educação do meu filho. Atualmente, as crianças não dividem coisas. Elas falam umas para as outras "fala pra sua mãe/pai comprar pra você", sem maldade... é o hábito... tipo, na escola, o coleguinha não pede um pouquinho do lanche do outro... ele chega em casa e pede pra mãe comprar um igual. São os valores modernos. Pois bem, meu filho dividiu sua "uva páscoa"* com os amigos e, para um filho único, acho sinceramente que é um excelente começo.
Às vezes fico meio injuriada com esse negócio de ser mãe. Com as perguntas difíceis que temos de responder de uma forma fácil (como são feitos os desenhos animados, como eles chegam na nossa casa e por que não podemos pegar essas tais ondas eletromagnéticas?) , da atenção requisitada a todo momento (agora mesmo tive de gritar "estou escrevendo, filho! não vou aí agora, não!"), da sessão de cinema com os amigos que perdi ontem porque tinha amiguinhos dele aqui, das inúmeras vezes que deixei de fazer alguma coisa porque não tinha com quem deixá-lo, da atenção a ser dispendida (como agora de novo, "mamãe, sai desse computador!"). Confesso que sou humana e, por essas e outras, a maternidade exige muito de mim. Todavia, e sempre há um todavia, acompanhar o crescimento do meu filho e a formação do seu caráter e da sua capacidade intelectual é um fenômeno digno de dar graças a Deus. Que Ele me proporcione ainda muitos anos - sabedoria e sanidade - para poder estar com meu filho e cumprir com maestria esse papel que a mim foi atribuído.

uva páscoa*: 
-É uva passa, filho. 
-Mas por que ela chama uva passa? 
(Ana Paula pensando: Véi, véi, véééii... Por que o menino simplesmente não aceita o que eu digo? A quem ele puxou com esses questionamentos todos? Como a minha mãe sofreu comigo, Jesus amado! Num vou explicar isso para ele agora, porque eu sei que não vai parar por aí. Outra hora eu corrijo isso...)
-Pode falar uva páscoa por enquanto, filho...

Antes que você me julgue e condene a minha decisão, quero só esclarecer que para a mente frenética do meu filho respostas simples como "é porque ela passou da hora de colher" ou "porque as frutas quando ficam secas são chamadas de passas" não seriam satisfatórias. No atual grau de curiosidade dele, a conversa terminaria em outra pergunta: "então, a minha bisavó também é passa?"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Se a vida lhe der limões...

O prático - Faço uma limonada.
O revoltado - Enfia esses limões no seu cu.
O agradecido - Ó, puxa! Limões! Eu adoro limões! Obrigada!
O humilde - Não precisava... Que lindos limões...
O conformado - Ok. Dê-me cá os limões.
O inconformado - Eu não queria limões! Nunca pedi limões! Queria mesmo era laranja-lima!

Mas se por acaso a vida resolve lhe tomar os limões de volta:

O prático - Já fiz a limonada e já bebi.
O revoltado - Não precisa levar tão a sério o que eu disse...
O agradecido - Ah, mas eu havia me apegado tanto a eles...
O humilde - Certamente eles estarão melhor com você.
O conformado - Tudo bem, pode levar os limões.
O inconformado - Agora que me acostumei a ter limões, vem você e os toma de mim?! Ah, vá!

(Post em construção...)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Lições da escola

Ainda sobre material escolar, gostaria de compartilhar com vocês mais um recorte da minha infância pobre. Antes de começar, quero esclarecer que quando conto episódios tais como o de hoje, a intenção não é outra senão demonstrar a vocês o quanto sou grata pela educação que tive. Fui criada com muito pouco e, por isso, hoje sei valorizar tudo que tenho.

Pois bem, a passagem da qual me recordei enquanto encapava os livros do meu pequeno é que quando eu comecei a estudar, ganhávamos do Governo um caderninho, um lápis e uma borracha. O caderninho era pequeno e de capa mole, com o  Hino Nacional na contra-capa. Mas para nós, era o máximo ganhar um caderno, um mimo. Fazíamos margem nele com caneta vermelha e o encapávamos. Aí que entra a parte mais bacana. O senhor, nobre leitor, acha que nós - estudantes de escola pública, no início dos anos 90, leia-se início da Era Collor - dispúnhamos de quaisquer recursos para comprar plástico para encapar livros e cadernos? Chegava ser heresia cogitar uma asneira dessas! Plástico colante, então! era coisa de menino de escola particular! Burguesinho!

Nossos livros eram personalizados: sacolinhas de supermercado, saquinhos de açúcar, lona, jornais, papel de pão... Certa vez, minha mãe encapou um caderninho meu com um retalho que estava sobrando em seus guardados. Imagine o frisson que não causei quando cheguei com um "caderno revestido em tecido", para os dias atuais. Teve também a vez que meu padrinho foi representante
comercial da Garoto e ele me deu um rolinho do papel amarelo escrito Garoto em vermelho que usavam para forrar as gôndolas nos supermercados. Uau!!! Meus livros eram únicos na escola todinha! Ninguém tinha um livro com a capa igual a minha! Vergonha? Não, nunca tive. Éramos todos pobres. Alguns até mais do que eu... Não tinha porque me envergonhar. A precariedade era tanta onde estudei, que alguns pais colocavam os filhos em turnos alternados para que usassem a mesma camiseta de uniforme - que era apenas uma para os dois irmãos.

Logo, aprendi desde cedo a valorizar o que tenho e ontem, ao arrumar o material do meu filho, que estuda em escola particular e que, portanto, não ganha cadernos, tampouco livros, sequer um lápis do Governo, percebi que isso fará falta a ele um dia. O "não possuir" coisas ajuda a moldar a índole e o caráter das pessoas e sei que meu filho crescerá sem essa experiência. E por mais que tentemos educar, explicar e ensinar, não há nada como a vivência para gravar aprendizado no coração das pessoas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Ajustando as margens

Neste exato momento em que escrevo esse texto, minha impressora está a imprimir as margens no caderno de desenho do meu filho. Sim. Ano passado tive a brilhante ideia de desencadernar o caderno e imprimir as margens nas folhas, em vez de ficar fazendo traços com caneta e régua.

Fico ligeiramente orgulhosa de mim com esse arranjo produtivo, todavia nem tudo são flores no mundo das ideias (e em outros mundos também). Tive de fazer 12 experimentos até chegar ao resultado em que eu pretendia, entre espessura, cor, alinhamento e distância. Fiquei nervosa, gritei com o computador, gritei com o Pedro, quis largar tudo e fazer à mão. Mas, em vez disso, fui na cozinha e tomei um copo d'água... três respirações profundas e voilá! A resposta para o que não estava dando certo apareceu! E nesse instante, as folhas estão sendo impressas com uma velocidade que eu seria incapaz de riscar manualmente.

O bom de envelhecer é tirar lições, sabia? Hoje, tudo que vivencio consigo extrair da situação algum aprendizado. Concluí que se eu tivesse desistido na décima primeira folha, eu não estaria aqui agora escrevendo esse texto e, sim, riscando folhas com uma régua e uma caneta... contrariada da vida... Também concluí que desistir antes de esgotadas todas as possibilidades não é a melhor alternativa. Afinal, eu tinha cem folhas de papel para tentar e tentar e tentar. E se não desse certo após as cem? Aí eu teria de comprar outro caderno.

Opa! Tenho de terminar por aqui. A impressora já fez o meu trabalho. Foi difícil até acertar as configurações, mas depois disso...

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Por mais prosa em 2015

Oi, blog!

É bom estar de volta, mesmo que seja só de passagem, para lhe desejar um Feliz Ano Novo.
Por falar em ano novo, neste que passou aconteceu algo esquisito, ou melhor, tudo que aconteceu foi esquisito... Acho que por conta disso, não trouxe expectativas para 2015, não fiz as minhas tradições de fim de ano, meus planejamentos, não fiz absolutamente nada! A virada mesmo tentei passar dormindo, mas meu vizinho e seu som estúpido não permitiram. Águas passadas.

Blog, não lhe prometo nada para 2015. Não prometo que escreverei mais textos, que lerei mais livros e nem que serei uma pessoa melhor. Entretanto, tenho uma torcida para esse ano que se inicia. Torço que as pessoas sejam mais presentes umas nas vidas das outras, torço para que elas tenham menos ocupações e mais tempo para o ócio, torço para que elas voltem a ter assunto e conversar entre si, torço para um bug no Whatsapp.

Além da parte financeira, que nunca esteve tão mal desde que eu administro minhas próprias contas, a parte afetiva deixou a desejar. Mais particularmente com relação aos meus amigos. Tenho perdido boas amizades e não tenho conseguido construir novas com a solidez das antigas. Não sei se é porque eu fui alguém mais interessante e agradável do que sou hoje, ou se foram os padrões dos meus amigos que se tornaram rigorosos demais. Também não me preocupo muito com isso. Por falar em preocupação, 2014 também me agraciou com meus primeiros cabelos brancos e não tem sido fácil lidar com a chegada deles. 

Eu disse que não me preocupo, mas lamentar, eu lamento. Sinto muito não ficar mais horas a fio na casa de algum amigo, conversando despreocupadamente. Talvez seja porque as preocupações são tantas que chegam a saltar da cabeça - acredito, mas isso é segredo nosso, que algumas delas saem em forma de cabelos brancos. Todavia, as tarefas e compromissos não nos permitem desligarmos por míseras três horas do mundo lá fora. Por conta disso, 2014 também me brindou com surtos de ansiedade, inúmeras vezes confundidos com algum problema cardíaco. Mas era SÓ ansiedade...

Pessoas ansiosas não conseguem se divertir, porque seu pensamento está sempre no futuro. O presente é um martírio para um pobre ansioso como eu. É nessa hora que entram os amigos. Que conversemos uns com os outros, que tenhamos tempo uns para os outros, que ao sairmos uns com os outros resgatemos a fala, a oralidade, a troca de experiências. Essa é minha torcida para 2015.