terça-feira, 19 de agosto de 2014

Insanidade level hard

Eu tenho uma quedinha por surtos. Sou o tipo de pessoa que aguenta muita coisa calada e, talvez por isso, sonho com meus dias de fúria. Agora mesmo estava revendo a cena desse filme aqui,só para, por catarse, me sentir vingada.



No geral não sou vingativa, entretanto, às vezes, tenho vontade de fazer maldades insanas. Daquelas maldades tipo cortar a cueca que chegou suja de batom e aproveitar que já estou com a tesoura na mão e picotar as mangas das camisas, as camisetas de marca, as calças, bermudas, meias, gravatas... tudo! Deixá-lo com uma mão na frente e outra atrás... e, se algo mais aparecer sujo de batom, também vai para o espaço, seja o pescoço, o peito ou o pinto. 

Outra situação hipotética em que traço todo um roteiro de descarga emocional vingativa é quando alguém fecha meu carro no estacionamento. Por duas vezes deixei recadinhos escritos com batom no vidro do carro depois de manobrar meu carro zilhões de vezes até conseguir tirá-lo do local. Recados leves do tipo "evite fechar as pessoas, ok?" ou "fechar o carro dos outros não é legal". Todavia, o meu mais profundo desejo é de arranhar com um prego o carro do Indivíduo Sacana e para cada arranhão eu escreveria na lataria do carro um xingamento e uma frase moralista com pincel atômico preto. "Da próxima vez, enfia esse carro no seu cu, seu merda!!" Sim, e colocaria todas as vírgulas e acentos para ele ver que ser trata de uma pessoa com boa educação... no seu dia de surto, mas com boa educação.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Clarissa - Epílogo

"Querido Antonio,

Quatro longas semanas se passaram desde que vim embora. Sua presença foi muito marcante em meus dias e ainda tenho a impressão de ouvir sua voz quando ando pelas ruas. Aqui no Brasil tudo permaneceu como eu deixei e a sensação que tenho é que o tempo parou quando parti. Enfim, sensações...

Ontem fui visitar uma amiga, a Ana Paula, aquela jornalista que lhe falei, lembra? Que também é fotógrafa e tem um blog de crônicas. Ela tem um filhinho adorável e agora, por hobby, dedica horas do seus dias a cultivar plantinhas no seu quintal. Na nossa conversa ela me contou sobre sua experiência em plantar girassóis. Comprou as sementes, fez covas rasas, plantou-as com a ajuda do Pedrinho e esperou para ver suas lindas flores amarelas nascerem. Mas elas não nasceram.

Quando foi verificar o que havia se sucedido, percebeu que os pássaros descobriram a farta comida guardada debaixo de uma fina camada de terra e comeram todas as sementes. Contudo, minha amiga não se abateu e plantou seus girassóis mais uma vez, agora numa cova mais profunda. Ainda assim os pássaros – já espertos –  continuaram a comê-las. Enquanto conversávamos no quintal, ela estava fazendo sua terceira tentativa. Colocaria algo para espantar as aves dessa vez. Como bem a conheço, sei que não desistirá enquanto não vir ao menos um pé de girassol nascer em seu terreiro.

Por que lhe contei todo esse enredo? Porque quero que você me diga o quanto somos capazes de interferir no nosso destino. O quão poderosos somos para tomar nossas decisões e quanto elas podem impactar no nosso futuro. Tudo já está escrito ou somos nós quem escrevemos? Na verdade, não quero que você me responda. Nem poderia... São apenas perguntinhas frenéticas que pululam na minha cabeça desde que voltei para a minha realidade aqui no Brasil.

A minha tendência, Antonio, é acreditar que o que tem de acontecer, vai acontecer. Pode até ser que graças a uma decisão ou outra as coisas tomem um rumo diferente por algum momento, mas o que tiver de ser, será. Se já estiver pré-disposto que minha amiga colherá seus girassóis, poderão vir pássaros de todos os lados do mundo que não conseguirão detê-los... algum girassol nascerá. Todavia, se for o oposto, se a sina daquele quintal for nunca ter um girassol, a Ana Paula tentará, tentará e tentará inúmeras vezes e será tudo em vão. Mas é muito importante que ela tenha tentado. Às vezes, o percurso até o destino é mais gratificante que ele próprio. Outra dúvida que me ocorre: qual seria o momento certo de parar? Como saberíamos se o destino foi cumprido ou não? Acho que não sabemos ao certo, não é mesmo?! 

Só queria que soubesse que você foi uma linda parte do meu percurso até o meu destino, mas ainda não cheguei ao final. Isso é o que o meu coração me diz e essa tem sido a única forma de me balizar entre decisões: ouvindo meu coração. Então, com toda amizade e cumplicidade que conquistamos, peço licença a você para sair da sua vida. Não retornarei mais à Europa. Se, por algum momento, te magoei, perdão. Obrigada pelo sonho que foi conviver ao seu lado. Agora vou sonhar por aqui.

Com carinho,

Clarissa."

Clarissa - Capítulo V: O Reencontro

Na semana em que completara 30 anos, Clarissa se deu um presente especial. Diante de tantas mudanças no visual e nas atitudes, sentiu a necessidade de mudar de ares. Resolveu ir para a Europa. Sua escola de francês tinha um programa de intercâmbio interessante e resolveu se inscrever para uma temporada de seis meses. Fez aqueles acordos trabalhistas escusos para pegar o FGTS e Seguro Desemprego e tratou de tirar seu passaporte. No dia da entrevista na Polícia Federal, quando a pessoa lhe perguntou por que estava indo para a Europa, sentiu o chão abrindo sob os seus pés e quis responder “Porque preciso disso. Porque preciso me reencontrar, sabe? Tive uma paixão não correspondida que me deixou muito entristecida e por causa dela sofri um acidente e por causa dela estou descobrindo coisas maravilhosas. E agora, senti que era hora de descobrir coisas maravilhosas fora do Brasil, por isso quero ir para a Europa.”  Todavia, na mesma velocidade em que o chão se abriu, ele se fechou e ela respondeu apenas “Gostaria de aprimorar meu francês.”

Clarisse partiu rumo ao novo. Ficaria hospedada na casa de uma família da França e estudaria na escola conveniada do seu curso no Brasil. Tinha intenções de conhecer o máximo que o tempo livre e o dinheiro permitisse. Faria tudo sozinha, porque desta forma andava melhor. Chegaria no meio da primavera e, assim, permaneceria por lá também durante o verão e o outono. A nossa protagonista estava contente! Num estado tal de felicidade que nem por um momento precisou desviar pensamentos para não pensar nele.

Ele, a propósito, chama-se Armando. Desculpe-me apresentá-lo somente agora, mas é que a este pobre narrador onisciente em terceira pessoa é permitido saber apenas os pensamentos de Clarissa. Nos dele nunca consegui penetrar, pois Armando estava sempre armado. Nunca conseguíamos ler em seus olhos o que sentia ou o que queria. Essa mesma intransponibilidade era para Clarissa motivo de fascínio e raiva ao mesmo tempo. Gostava de homens enigmáticos, mas zangava-se por não conseguir decifrá-los. 

Passaram-se as semanas e Clarisse havia se adaptado muito bem à família que a recebera, ao clima, ao lugar. A língua nem de longe era um problema para ela. Chegou a acreditar que já teria  vivido ali em outras encarnações. Tudo lhe era muito agradável, a começar pelas pessoas. Ah, os franceses, os homens especialmente, estavam despertando nela sentimentos e sensações que nunca havia experimentado em 30 anos de Brasil. Contudo, o destino tem suas peripécias e Clarissa se apaixonou por Antonio, que não era francês. Toni nasceu na Itália e mudou-se para a França a procura de trabalho. Era jornalista cultural e fotógrafo e, portanto, com inclinação para as artes. Conversa agradável, boa aparência, ideias malucas... tudo aquilo despertou muito interesse em Clarissa. Logo começaram a se relacionar e se davam muito bem, nos cafés, pelos parques, no sofá, na cama, na cozinha... Em pouquíssimo tempo já faziam parte um da vida do outro e ambos estavam muito felizes. 

E assim seguiram-se quatro meses. Os mais rápidos da vida de nossa heroína, que saiu da sua rotina disponível para o novo e o encontrou. Que amou e foi amada durante o verão. Mas o outono chegou, derrubando folhas das árvores pelo chão e também a felicidade de Clarissa.  Precisava voltar para o Brasil. Queria levar Toni consigo, mas reconhecia que o Brasil não seria um bom lugar para alguém como ele. O que fazer? Durante o tempo que passaram juntos nenhum dele se preocupou com essa pergunta. Viviam um dia após o outro apenas. Mas é chegada a hora: o que fazer? Clarissa não pensou muito - ao contrário daquela que conhecemos no primeiro capítulo – e disse a ele “Eu vou voltar. Me espera.” Antonio se limitou a encostar sua fonte à dela com carinho, respirar fundo e beijá-la. 

Retornou ao Brasil, sem um plano sequer. Sem nada na cabeça e com Toni no coração. Depois de visitar sua mãe, de quem sentira uma saudade que nem ela mesma conhecia, tratou de organizar algo para reencontrar os poucos amigos. Convidou-os para conversarem em um bar. Para sua surpresa, foram todos que ela havia chamado e mais alguns que ficaram sabendo de seu retorno. As pessoas queria ver a nova Clarissa. Seguiram-se animadas horas, com histórias e outros blá-blá-blás. Pela primeira vez se sentia querida por aqueles que estavam próximos. E ela devia esse sentimento ao Toni, que lhe mostrara como é ser envolvida por sentimentos alheios. Finalmente, as coisas pareciam claras para Clarissa agora.

Todos foram embora e Clarissa foi a última a sair. Fernando ficara para lhe fazer companhia e acompanhá-la até o carro. Tamanha foi a surpresa de ambos, que saiam sorridentes, ao ver Armando parado na porta do bar. Por nada no mundo Clarissa esperaria por aquilo. Ela havia esperado tanto por ele, para aparecer assim, de repente, do nada, depois de tudo acertado e resolvido no seu coração? (Céus! Como estava bonito e atraente!) Disse a Fernando que podia ir. Ele parecia querer ficar - não sabia se a amiga ficaria bem ali - mas foi.

“Clarissa, preciso falar com você e tem que ser tudo de uma vez. Peço que, por favor, me deixe falar e depois, se quiser, eu desapareço... mas eu preciso lhe falar. Você pode me ouvir?” Ela fez que sim com a cabeça, ainda atônita com aquilo que presenciava. Ele fez sinal para entrarem no carro. Lá dentro, com olhos rasos d’água e voz embargada pôs-se a falar: “Eu quero te pedir perdão. Sempre fui incapaz de assumir meus sentimentos por você. Sempre me neguei em demonstrar o que sentia. Fui um fraco. Desde que você surgiu na minha vida, pensei em você todos, todos os dias... não houve um sequer que eu não me lembrasse de você. Eu te queria, mas não sabia lidar com isso e acabei te perdendo. Me perdoe. Sei que te fiz sofrer, sei que o acidente foi culpa minha e o remorso me consome desde então. Não fui vê-la pois não conseguiria olhar nos seus olhos e você não imagina o quanto foi difícil para mim todo esse tempo sem você. Na verdade, eu te amo e te quero comigo, mas sei que cheguei tarde. Só que eu não suportava mais tudo isso represado dentro de mim e, por isso, quero apenas que você me perdoe. Jamais quis lhe causar qualquer sofrimento, só que por não conhecer a mim, neguei isso a você também. Bem, era isso. Obrigada.”

Clarissa não estava acreditando no que acabara de presenciar. Armando havia se desarmado! Tudo que ela esperava ouvir, ela ouviu quando parou de esperar por aquilo. Veja só como são as coisas! Não tinha palavras para dizer a Armando. Todo o discurso preparado e ensaiado para um eventual retorno ela se esquecera durante sua estada na Europa. Todavia, respirou fundo, pois precisava falar alguma coisa. Respirou novamente. E mais uma vez.

“Você não me deve desculpas e eu tão pouco tenho que perdoá-lo por alguma coisa. Eu te amava exatamente da forma como você era e eu te quis com todos os seus defeitos.” Nova respiração profunda, outra e mais outra. “Foi graças a você que eu me redescobri, que hoje eu sou quem eu sou. Na realidade, eu devo lhe agradecer.”

Armando olhava para ela com tanta doçura no olhar, que não reconheceu em momento algum seu típico olhar evasivo. Por que ele nunca havia olhado assim para ela antes? Como poderia uma pessoa se revelar tanto em uma só noite? Que outras surpresas ainda estariam por vir...? Seu pensamento foi interrompido por um beijo súbito. Num ímpeto ele lhe puxara os cabelos e tascara-lhe um beijo e Clarissa se entregou naquele beijo como se fosse o último de sua vida.

Não havia como acreditar em tanta mudança. Aquele não poderia ser o Armando. Não sabia quem estava ali, só sabia que a sensação era boa e, por nenhum momento, a imagem de Antonio viera-lhe à cabeça. Havia uma química e um desejo latente pulsando naquele carro. Foram para um motel. Dois corpos em simbiose absoluta fizeram amor, apenas amor, sem palavras, sem promessas, sem juras... e foi muito bom!