terça-feira, 4 de novembro de 2014

Sobre sumatras e homens

Quando meu filho ganhou um dinheiro da avó paterna para adquirir um aquário, confesso que não fiquei muito animada. Mas à medida que fui comprando as coisas e os peixinhos fui me empolgando com a ideia. É legal ouvir o barulho da água caindo da cascatinha ininterruptamente, digo até que é terapêutico. Também gosto de ficar olhando o comportamento dos peixinhos. Confesso que os comparo com pessoas conhecidas: têm aqueles mais bobinhos, os mais agressivos, aqueles que ficam “na dele”, os que só querem saber de comer...

Entretanto, há um que me chama mais a atenção e é sobre ele que quero falar hoje. O sumatra. Não vou perder tempo aqui pesquisando e transcrevendo a sua espécie, características biológicas e físicas, tampouco vou mostrar uma foto dele. Quero apenas descrever o seu comportamento e o que tenho vivido com ele. Digo ele, mas na verdade, são eles, no plural. Vou nominá-los para que você, amigo leitor, não se perca em minha narrativa.

No começo comprei Ichi e Ni. Não se davam muito bem e Ni acabou por assassinar Ichi. Observando que todos no aquário tinham outros amigos da mesma espécie, quis dar nova chance a Ni e comprei San para lhe fazer companhia. Fui pescar e da minha pescaria trouxe dois pequeninos cascudos. Quando os coloquei no aquário, Ni devorou o primeiro vorazmente! Numa só tacada o comeu ali, diante dos meus olhinhos. Fiquei pesarosa por ter retirado o cascudo do rio, onde teria uma vida promissora, para viajar 300 km e morrer pela boca de um sumatra mimado e egocêntrico de aquário. O segundo cascudo desapareceu dias depois. Então, viveram razoavelmente bem por umas duas semanas até que San adoeceu. Um sumatra, custa em média R$ 2,50 e tamanha foi a minha dúvida quando o veterinário me disse que o remédio para curar San custava R$ 7,50! Ora, eu poderia jogar o peixe doente fora e com aquele dinheiro adquiriria três outros! Mas tive pena. Quem sou eu para determinar a duração da vida do peixinho? Fiz minha parte e comprei o remédio. Separei-o dos demais e comecei a tratá-lo. San não nadava e ficava apenas amuado no fundo do recipiente, mas eu insisti. Por 10 dias o mantive isolado e vinha observando melhoras em seu aspecto. Até mesmo ele já se sentia melhor e voltara a nadar com rapidez. Um dia acordei e ele não estava no recipiente. Sua alegria em  se recuperar foi tamanha, que pulou para fora do recipiente direto para as garras da morte. Encontrei-o morto debaixo do rack. Fiquei frustrada (e ainda estou um pouco). Como você se sentiria se tivesse se dedicado à cura de alguém e de repente ela procura a morte – que você a privou. A partir disso começo a me perguntar: eu deveria tê-lo deixado morrer quando adoeceu? De que adiantou tanto esforço para recuperá-lo?

Ni ficou sozinho de novo. E assim permaneceu por muitos dias no aquário. Passei a observá-lo mais e ele parecia não se importar de ficar sozinho. Ele nada rápido, come muito, persegue os outros peixes. Um pequeno encrenqueiro. Enche a boca de ração. Às vezes acho que faz isso só para que os outros não tenham o que comer, mais do que por fome propriamente dita. Tenho tido dúvidas quanto à índole de Ni. Um dia cheguei do trabalho e meu tricogaster azul estava morto. Não vi o crime, mas tenho tudo para acreditar que o sumatra pode ter dado início ao massacre.

Precisava comprovar minha suspeita sobre Ni. Se, de fato, o problema era dele ou da espécie. Comprei Shi, Go e Roku, todos sumatras... Além deles, algumas outras espécies e, em especial, uma dupla de acarás-bandeiras (lindos!). Ao soltá-los no aquário, Ni cumprimentou os três de sua espécie e elegeu algum novo integrante para perseguir. A infelicidade de Ni é que resolveu bater justamente num dos meus favoritos e não tolerei essa sua nova demonstração de prepotência e arrogância. Chega uma hora que, por mais que sejamos apegados a certos peixes e por maior que seja nossa afeição, precisamos dar um basta em suas atitudes. Meu sumatra implicante e briguento foi advertido. Está separado dos demais, dentro de um copo, sem plantas, sem bolhas, sem pedras... Às vezes é preciso perder pra dar valor ao que tem. Acredito que isso não será suficiente para que aprenda a lição, mas foi uma tentativa. Se ao soltá-lo novamente com os demais ele insistir nesse comportamento anti-social, antiquado, antiaglutinante, antipático, anti-romântico, anti-tudo, serei forçada a devolvê-lo para a loja. Tenho dito. (29/10/2014)

Epílogo

Ni ficou isolado por dois dias. Teve seu universo reduzido a 400ml de água, apenas isso. Não comeu. Não teve seu oxigênio renovado. Não conviveu com outros peixes. Minha vontade era de escrever aqui que ele pensou, refletiu sobre suas atitudes e chegou à conclusão que precisaria ser um peixe melhor. Todavia, sou impedida de me expressar assim porque aprendi desde pequenininha na escola que animais são seres irracionais. Portanto, não tenho a audácia de dizer o contrário. Só sei que Ni não corre mais atrás do meu lindo acará e vive pacificamente com os demais. Ultimamente tem sido o líder do quarteto e Shi, Go e Roku o idolatram.(04/11/2014)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Não existimos fora das redes sociais

Já há algum tempo venho desconfiando que as relações humanas andam precárias. Ontem quis tirar a prova e fiquei triste em constatar que é verdade. Retirei a notificação do meu aniversário do Facebook e veja só a minha surpresa: apenas sete amigos se lembraram! Além deles, seis parentes, contando pai e mãe. Bem a que conclusão eu posso chegar? Ou que eu sou uma pessoa não muito querida, ou que todo mundo se apega à memória virtual das redes sociais para se lembrar das pessoas. Prefiro acreditar que seja a segunda. (carinha triste)

Não fiz festa esse ano por falta de motivação, simplesmente as pessoas não comparecem. Você as convida a passar um momento com você e elas não vêm, muitas sequer agradecem o convite. Mas quando acontece, raramente, de as pessoas conseguirem se encontrar, elas não conversam entre si. É sempre mais interessante o que está lá fora, ao alcance das redes. Compreendam que não estou julgando ninguém. Eu mesma me comporto assim. Apenas critico essa nova forma de se relacionar, em que datas de aniversário são esquecidas, ligações telefônicas passaram a ser incômodas e que visitas sem hora marcada é uma falta de educação. 

Essas coisas reforçam meu desejo de me mudar para o interior, sabe? Mas uma cidade pequenininha, em que eu possa ir a qualquer lugar de bicicleta, em que eu passe e pare na porta da casa de alguém e ele esteja sentado no banquinho debaixo da árvore sem fazer nada. Desejo me mudar para um lugar em que esse ritmo frenético e ansioso de uma capital não tenha contaminado as pessoas com seus  compromissos inadiáveis e sua falta de tempo constante. 

Outra característica que venho percebendo - lembre-se que continuo me incluindo nela - é que as pessoas não têm mais assunto entre si, ou seja, quando se encontram para conversar, não sabem sobre o que falar. Aprendemos a compartilhar fotos, vídeos, notícias, charges e perdemos nossa oralidade. O que está em voga é enviar coisas para os outros, é encaminhar. Antigamente, alguém ouvia uma história e a recontava para outra pessoa imprimindo nelas sua entonação, suas emoções, seu modo de enxergar... Hoje basta CTRL+C e depois CTRL+V. Nos trabalhos escolares ninguém lê a Barsa e copia para a folha de papel almaço, a garotada lê a primeira linha da Wikipedia e fala "é isso": copia e cola no Word. 

Confesso que essa evolução (tenho dúvidas sobre o uso dessa palavra) me deixa um pouco incomodada. Ainda sobre o fato de não termos repertório para conversas, digo que o mundo está muito exposto, talvez por isso não nos importemos tanto uns com os outros. Se estou triste, posto no Face que estou triste, se estou comendo, mostro a todos o que estou comendo, se tenho uma opinião posto um texto no meu blog. E assim, as pessoas vão ficando desinteressantes umas para as outras. A vida alheia está ao nosso alcance demais graças às redes sociais. 

Por vezes me pergunto como será a relação dos meus netos com os seus e temo que Aldous Huxley esteja certo. (carinha de espanto)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Insanidade level hard

Eu tenho uma quedinha por surtos. Sou o tipo de pessoa que aguenta muita coisa calada e, talvez por isso, sonho com meus dias de fúria. Agora mesmo estava revendo a cena desse filme aqui,só para, por catarse, me sentir vingada.



No geral não sou vingativa, entretanto, às vezes, tenho vontade de fazer maldades insanas. Daquelas maldades tipo cortar a cueca que chegou suja de batom e aproveitar que já estou com a tesoura na mão e picotar as mangas das camisas, as camisetas de marca, as calças, bermudas, meias, gravatas... tudo! Deixá-lo com uma mão na frente e outra atrás... e, se algo mais aparecer sujo de batom, também vai para o espaço, seja o pescoço, o peito ou o pinto. 

Outra situação hipotética em que traço todo um roteiro de descarga emocional vingativa é quando alguém fecha meu carro no estacionamento. Por duas vezes deixei recadinhos escritos com batom no vidro do carro depois de manobrar meu carro zilhões de vezes até conseguir tirá-lo do local. Recados leves do tipo "evite fechar as pessoas, ok?" ou "fechar o carro dos outros não é legal". Todavia, o meu mais profundo desejo é de arranhar com um prego o carro do Indivíduo Sacana e para cada arranhão eu escreveria na lataria do carro um xingamento e uma frase moralista com pincel atômico preto. "Da próxima vez, enfia esse carro no seu cu, seu merda!!" Sim, e colocaria todas as vírgulas e acentos para ele ver que ser trata de uma pessoa com boa educação... no seu dia de surto, mas com boa educação.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Clarissa - Epílogo

"Querido Antonio,

Quatro longas semanas se passaram desde que vim embora. Sua presença foi muito marcante em meus dias e ainda tenho a impressão de ouvir sua voz quando ando pelas ruas. Aqui no Brasil tudo permaneceu como eu deixei e a sensação que tenho é que o tempo parou quando parti. Enfim, sensações...

Ontem fui visitar uma amiga, a Ana Paula, aquela jornalista que lhe falei, lembra? Que também é fotógrafa e tem um blog de crônicas. Ela tem um filhinho adorável e agora, por hobby, dedica horas do seus dias a cultivar plantinhas no seu quintal. Na nossa conversa ela me contou sobre sua experiência em plantar girassóis. Comprou as sementes, fez covas rasas, plantou-as com a ajuda do Pedrinho e esperou para ver suas lindas flores amarelas nascerem. Mas elas não nasceram.

Quando foi verificar o que havia se sucedido, percebeu que os pássaros descobriram a farta comida guardada debaixo de uma fina camada de terra e comeram todas as sementes. Contudo, minha amiga não se abateu e plantou seus girassóis mais uma vez, agora numa cova mais profunda. Ainda assim os pássaros – já espertos –  continuaram a comê-las. Enquanto conversávamos no quintal, ela estava fazendo sua terceira tentativa. Colocaria algo para espantar as aves dessa vez. Como bem a conheço, sei que não desistirá enquanto não vir ao menos um pé de girassol nascer em seu terreiro.

Por que lhe contei todo esse enredo? Porque quero que você me diga o quanto somos capazes de interferir no nosso destino. O quão poderosos somos para tomar nossas decisões e quanto elas podem impactar no nosso futuro. Tudo já está escrito ou somos nós quem escrevemos? Na verdade, não quero que você me responda. Nem poderia... São apenas perguntinhas frenéticas que pululam na minha cabeça desde que voltei para a minha realidade aqui no Brasil.

A minha tendência, Antonio, é acreditar que o que tem de acontecer, vai acontecer. Pode até ser que graças a uma decisão ou outra as coisas tomem um rumo diferente por algum momento, mas o que tiver de ser, será. Se já estiver pré-disposto que minha amiga colherá seus girassóis, poderão vir pássaros de todos os lados do mundo que não conseguirão detê-los... algum girassol nascerá. Todavia, se for o oposto, se a sina daquele quintal for nunca ter um girassol, a Ana Paula tentará, tentará e tentará inúmeras vezes e será tudo em vão. Mas é muito importante que ela tenha tentado. Às vezes, o percurso até o destino é mais gratificante que ele próprio. Outra dúvida que me ocorre: qual seria o momento certo de parar? Como saberíamos se o destino foi cumprido ou não? Acho que não sabemos ao certo, não é mesmo?! 

Só queria que soubesse que você foi uma linda parte do meu percurso até o meu destino, mas ainda não cheguei ao final. Isso é o que o meu coração me diz e essa tem sido a única forma de me balizar entre decisões: ouvindo meu coração. Então, com toda amizade e cumplicidade que conquistamos, peço licença a você para sair da sua vida. Não retornarei mais à Europa. Se, por algum momento, te magoei, perdão. Obrigada pelo sonho que foi conviver ao seu lado. Agora vou sonhar por aqui.

Com carinho,

Clarissa."

Clarissa - Capítulo V: O Reencontro

Na semana em que completara 30 anos, Clarissa se deu um presente especial. Diante de tantas mudanças no visual e nas atitudes, sentiu a necessidade de mudar de ares. Resolveu ir para a Europa. Sua escola de francês tinha um programa de intercâmbio interessante e resolveu se inscrever para uma temporada de seis meses. Fez aqueles acordos trabalhistas escusos para pegar o FGTS e Seguro Desemprego e tratou de tirar seu passaporte. No dia da entrevista na Polícia Federal, quando a pessoa lhe perguntou por que estava indo para a Europa, sentiu o chão abrindo sob os seus pés e quis responder “Porque preciso disso. Porque preciso me reencontrar, sabe? Tive uma paixão não correspondida que me deixou muito entristecida e por causa dela sofri um acidente e por causa dela estou descobrindo coisas maravilhosas. E agora, senti que era hora de descobrir coisas maravilhosas fora do Brasil, por isso quero ir para a Europa.”  Todavia, na mesma velocidade em que o chão se abriu, ele se fechou e ela respondeu apenas “Gostaria de aprimorar meu francês.”

Clarisse partiu rumo ao novo. Ficaria hospedada na casa de uma família da França e estudaria na escola conveniada do seu curso no Brasil. Tinha intenções de conhecer o máximo que o tempo livre e o dinheiro permitisse. Faria tudo sozinha, porque desta forma andava melhor. Chegaria no meio da primavera e, assim, permaneceria por lá também durante o verão e o outono. A nossa protagonista estava contente! Num estado tal de felicidade que nem por um momento precisou desviar pensamentos para não pensar nele.

Ele, a propósito, chama-se Armando. Desculpe-me apresentá-lo somente agora, mas é que a este pobre narrador onisciente em terceira pessoa é permitido saber apenas os pensamentos de Clarissa. Nos dele nunca consegui penetrar, pois Armando estava sempre armado. Nunca conseguíamos ler em seus olhos o que sentia ou o que queria. Essa mesma intransponibilidade era para Clarissa motivo de fascínio e raiva ao mesmo tempo. Gostava de homens enigmáticos, mas zangava-se por não conseguir decifrá-los. 

Passaram-se as semanas e Clarisse havia se adaptado muito bem à família que a recebera, ao clima, ao lugar. A língua nem de longe era um problema para ela. Chegou a acreditar que já teria  vivido ali em outras encarnações. Tudo lhe era muito agradável, a começar pelas pessoas. Ah, os franceses, os homens especialmente, estavam despertando nela sentimentos e sensações que nunca havia experimentado em 30 anos de Brasil. Contudo, o destino tem suas peripécias e Clarissa se apaixonou por Antonio, que não era francês. Toni nasceu na Itália e mudou-se para a França a procura de trabalho. Era jornalista cultural e fotógrafo e, portanto, com inclinação para as artes. Conversa agradável, boa aparência, ideias malucas... tudo aquilo despertou muito interesse em Clarissa. Logo começaram a se relacionar e se davam muito bem, nos cafés, pelos parques, no sofá, na cama, na cozinha... Em pouquíssimo tempo já faziam parte um da vida do outro e ambos estavam muito felizes. 

E assim seguiram-se quatro meses. Os mais rápidos da vida de nossa heroína, que saiu da sua rotina disponível para o novo e o encontrou. Que amou e foi amada durante o verão. Mas o outono chegou, derrubando folhas das árvores pelo chão e também a felicidade de Clarissa.  Precisava voltar para o Brasil. Queria levar Toni consigo, mas reconhecia que o Brasil não seria um bom lugar para alguém como ele. O que fazer? Durante o tempo que passaram juntos nenhum dele se preocupou com essa pergunta. Viviam um dia após o outro apenas. Mas é chegada a hora: o que fazer? Clarissa não pensou muito - ao contrário daquela que conhecemos no primeiro capítulo – e disse a ele “Eu vou voltar. Me espera.” Antonio se limitou a encostar sua fonte à dela com carinho, respirar fundo e beijá-la. 

Retornou ao Brasil, sem um plano sequer. Sem nada na cabeça e com Toni no coração. Depois de visitar sua mãe, de quem sentira uma saudade que nem ela mesma conhecia, tratou de organizar algo para reencontrar os poucos amigos. Convidou-os para conversarem em um bar. Para sua surpresa, foram todos que ela havia chamado e mais alguns que ficaram sabendo de seu retorno. As pessoas queria ver a nova Clarissa. Seguiram-se animadas horas, com histórias e outros blá-blá-blás. Pela primeira vez se sentia querida por aqueles que estavam próximos. E ela devia esse sentimento ao Toni, que lhe mostrara como é ser envolvida por sentimentos alheios. Finalmente, as coisas pareciam claras para Clarissa agora.

Todos foram embora e Clarissa foi a última a sair. Fernando ficara para lhe fazer companhia e acompanhá-la até o carro. Tamanha foi a surpresa de ambos, que saiam sorridentes, ao ver Armando parado na porta do bar. Por nada no mundo Clarissa esperaria por aquilo. Ela havia esperado tanto por ele, para aparecer assim, de repente, do nada, depois de tudo acertado e resolvido no seu coração? (Céus! Como estava bonito e atraente!) Disse a Fernando que podia ir. Ele parecia querer ficar - não sabia se a amiga ficaria bem ali - mas foi.

“Clarissa, preciso falar com você e tem que ser tudo de uma vez. Peço que, por favor, me deixe falar e depois, se quiser, eu desapareço... mas eu preciso lhe falar. Você pode me ouvir?” Ela fez que sim com a cabeça, ainda atônita com aquilo que presenciava. Ele fez sinal para entrarem no carro. Lá dentro, com olhos rasos d’água e voz embargada pôs-se a falar: “Eu quero te pedir perdão. Sempre fui incapaz de assumir meus sentimentos por você. Sempre me neguei em demonstrar o que sentia. Fui um fraco. Desde que você surgiu na minha vida, pensei em você todos, todos os dias... não houve um sequer que eu não me lembrasse de você. Eu te queria, mas não sabia lidar com isso e acabei te perdendo. Me perdoe. Sei que te fiz sofrer, sei que o acidente foi culpa minha e o remorso me consome desde então. Não fui vê-la pois não conseguiria olhar nos seus olhos e você não imagina o quanto foi difícil para mim todo esse tempo sem você. Na verdade, eu te amo e te quero comigo, mas sei que cheguei tarde. Só que eu não suportava mais tudo isso represado dentro de mim e, por isso, quero apenas que você me perdoe. Jamais quis lhe causar qualquer sofrimento, só que por não conhecer a mim, neguei isso a você também. Bem, era isso. Obrigada.”

Clarissa não estava acreditando no que acabara de presenciar. Armando havia se desarmado! Tudo que ela esperava ouvir, ela ouviu quando parou de esperar por aquilo. Veja só como são as coisas! Não tinha palavras para dizer a Armando. Todo o discurso preparado e ensaiado para um eventual retorno ela se esquecera durante sua estada na Europa. Todavia, respirou fundo, pois precisava falar alguma coisa. Respirou novamente. E mais uma vez.

“Você não me deve desculpas e eu tão pouco tenho que perdoá-lo por alguma coisa. Eu te amava exatamente da forma como você era e eu te quis com todos os seus defeitos.” Nova respiração profunda, outra e mais outra. “Foi graças a você que eu me redescobri, que hoje eu sou quem eu sou. Na realidade, eu devo lhe agradecer.”

Armando olhava para ela com tanta doçura no olhar, que não reconheceu em momento algum seu típico olhar evasivo. Por que ele nunca havia olhado assim para ela antes? Como poderia uma pessoa se revelar tanto em uma só noite? Que outras surpresas ainda estariam por vir...? Seu pensamento foi interrompido por um beijo súbito. Num ímpeto ele lhe puxara os cabelos e tascara-lhe um beijo e Clarissa se entregou naquele beijo como se fosse o último de sua vida.

Não havia como acreditar em tanta mudança. Aquele não poderia ser o Armando. Não sabia quem estava ali, só sabia que a sensação era boa e, por nenhum momento, a imagem de Antonio viera-lhe à cabeça. Havia uma química e um desejo latente pulsando naquele carro. Foram para um motel. Dois corpos em simbiose absoluta fizeram amor, apenas amor, sem palavras, sem promessas, sem juras... e foi muito bom!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo IV: O Desgosto

Clavícula e costelas quebradas, Clarissa agora passava seus dias a assistir tevê. Lembrava-se apenas de alguns relances do acidente, nada conexo. Dias arrastados. Já não eram de muita emoção há tempos, mas agora, com sua mãe instalada dentro da sua casa para os cuidados necessários, a rotina tornou-se algo quase insuportável. Por um milésimo de segundo sentiu vontade de estar no balcão da farmácia... mas a vontade foi tão efêmera que voltou a se entreter com o seriado na tevê.

E foi assim por dias, semanas e semanas. Alguns amigos mandavam mensagens de ânimo pelo Facebook ou pelo Whatsapp. Alguns poucos foram visitá-la em casa. Mas o que contribuiu de fato para o aumento da tristeza em seus dias acinzentados é que ele - por quem saíra de casa aquela noite, a razão de ter batido o carro, o homem para quem se declararia - não se importou com o estado dela. Ele não mandou mensagem no Facebook, nem no Whatsapp e nem foi vê-la. A hipótese de que ele não soube do acidente foi afastada, porque ela mesma incumbiu alguém de sua inteira confiança para que providenciasse isso. E assim foi feito. Ela aguardou por dias, semanas e semanas um contato, ao menos um "como você está?", qualquer palavra que demonstrasse que ele ainda se importava com ela... mas não aconteceu. Aquela angústia de não ser correspondida em seus anseios, tornava os dias ainda mais fatigantes. A ausência dele, a presença da mãe em seu espaço e a impossibilidade de locomoção, tudo isso fazia com que ela olhasse para o céu e se imaginasse um pássaro, voando para longe dos seus problemas, das suas agonias.

Mas o tempo é sempre solidário a quem sofre. E sua dor foi se dissipando, dia após dia, semana após semana. Clarissa, que pensava demais, decidiu parar de pensar. Não é tão simples, mas era um exercício que ela se propôs a fazer. Sempre que, por um segundo, lembrava-se dele, logo tratava de desviar o pensamento. Tomou um foco e resolveu se dedicar a outras coisas. Suas costelas e clavícula se curaram, seu coração ainda não. Entretanto, ela sabia que devia agir rápido para curá-lo e de seu desgosto surgiu uma fagulha.

De volta a sua rotina - sem mãe, sem ele - pôs-se procurar atividades novas. Foi estudar francês, fazer natação e aprender tocar violão. Se arrumou, pintou o cabelo, fez uma tatuagem, trocou as roupas do armário e viu que tudo aquilo lhe fazia bem. Voltou a sorrir. E seu sorriso atraia olhares e convites e noites com companhias muito agradáveis. Assim, Clarissa foi voltando a viver. Desviando pensamentos, controlando emoções, seus dias voltaram a ter cores. Lágrimas de saudade, não mais.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo III: A Decisão

Não conseguia ver um palmo diante do seu nariz. Muita fumaça, muita mesmo. O vidro tornara-se uma parede fosca esbranquiçada. Assim era o banho de Clarissa. Habituada sempre a estar anuviada em pensamentos, as nuvens da fumaça quente do banheiro não a incomodavam nem um pouco. Pelo contrário, todo aquele mormaço causava-lhe um tremendo bem-estar. Sentia-se rodeada, abraçada e aquecida, tanto pelo vapor, quanto pela água quente caindo sobre seus ombros. Água quente esta que a fazia relaxar e entrar ainda mais em contato consigo. Naqueles instantes, passava o sabonete por todo o corpo e sentia-se... cada curva... se permitia tocar a sua pele e ter sensações e se conhecer... Escutava o barulho da água caindo e se permitia fazer uma viagem em seu infinito particular.

Após o banho, uma inquietude tomou conta do seu coração. Um daqueles sentimentos que nos incomodam a todo momento e não nos deixam enquanto não lhe estancamos a origem. Ela precisava falar com ele. Era muita coisa represada que implorava para sair. Mesmo que ouvisse um não... quem sabe um sim... Só saberia depois de tentar! 

Sabia que precisaria agir rapidamente, antes que a coragem se abrandasse... antes que voltasse a ser a Clarissa pensante de outrora. Foi ao guarda-roupa escolheu uma linda lingerie vermelha e um vestido também vermelho. Ora pois, se vermelho era a cor do amor, pensou ela, não custa nada reforçar com um batom escarlate. Uma última ajeitada diante do espelho e pôs-se a repetir o texto que ensaiara para declamar a ele: "ainda gosto muito de você. Quero voltar..." Pois, dentre as poucas coisas que Clarissa sabe sobre homens, uma delas é que a mulher deve ser direta se quiser se fazer ser entendida por um homem. 

E assim, fechou a sua casa e foi abrir seu coração.

Entretanto, o destino às vezes é cruel e Clarissa não conseguiu encontrar aquele que traria nova alegria aos seus dias. Ao passar por um cruzamento foi atingida em cheio por uma caminhonete em alta velocidade que passara no sinal vermelho. Seu carro foi lançado contra um poste que, com a pancada, partiu-se e caiu sobre ele. Quando os bombeiros chegaram, Clarissa estava muito ferida e inconsciente.

domingo, 20 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo II: O Arrependimento

Permaneceu no sofá por mais de uma hora, entre devaneios e saudades. Até que foi interrompida por uma dor forte, daquelas que são acometidas as pessoas que não comem há mais de cinco horas. De fato, deveria estar com fome. As quatro bolachinhas Mabel e o café do lanche há muito haviam virado quimo. Ai o café... Clarissa tem gastrite. Como um bichinho de estimação ela começou a se desenvolver por conta de um relacionamento mal sucedido há uns oito anos. Acordava, pensava nele e o estômago doía. Saia correndo para o banheiro para vomitar, mas nada saía além de um líquido amarelo e amargo... tão amarga quanto a sensação de pensar naquela relação que estava vivendo. Lembrou-se daqueles dias e se arrependeu. Por instantes, se perguntou como pôde levar por tanto tempo algo que lhe fazia tão mal?

Levantou-se e foi para a cozinha preparar algo para comer. Podia fazer um bolo... mas sempre ficavam recobertos de mofo após o terceiro dia, pois não havia ninguém para comer com ela. Por isso Clarissa fazia bolo para as visitas: gostava de ter com quem dividir. Entretanto, como sempre, optou pelo bom e velfho sanduíche de presunto com queijo. Ela acredita, inclusive, que as bandejinhas de frios fatiados vendidos no supermercado foram a melhor invenção feita para os solteiros. Um sanduíche no café, outro no almoço, lanche e jantar. Preparou seu sanduíche e o traçou com um geladíssimo copo de Coca-Cola. Os mais rigorosos podem se perguntar: mas, e a gastrite? Clarissa sabe das coisas que lhe fazem mal e se envergonha por não conseguir parar de consumi-las. Sente dentro de si uma tristeza toda vez que faz algo que não deveria, e esse, é mais um dos arrependimentos que ela carrega em si: de não conseguir ser mais forte que suas vontades.

Clarissa tem uma coleção de coisas que faria diferente se pudesse voltar no tempo. Não teria ficado apaixonada tanto tempo por um menino só na adolescência, não teria feito o curso superior que fez, teria insistido mais com a mãe para conhecer o pai, não teria transado nenhuma vez sem camisinha, teria viajado para a Europa em vez de comprar um apartamento, mais banhos de chuva, menos intrigas, mais porres...

Ainda meio abalada pela saudade do capítulo anterior, Clarissa se chateou. Ficou brava consigo e com seus impulsos, tanto pela falta de controle relatada acima, quanto ao descontrole emocional nos momentos de raiva. Por que havia sido tão dura com ele? Pra que falou tanta coisa que ele não merecia ouvir? Sim, ele havia errado. Pisou na bola. Magoou-a. Todavia ela havia sido intransigente demais. E se arreepende por isso. E por não conhecê-lo, pensou que voltaria. Mas não voltou. Então, com o tempo se deu conta do quanto o havia ferido com suas palavras. Clarissa traz em si essa culpa, como tantas outras, mas não sabe como voltar atrás... Já quis ir até sua casa e dizer tudo que sente e pedir desculpas e se proporcionarem uma nova chance, mas não conseguiu... Enquanto isso, ela fica assim: oscilando entre o desejo de tê-lo novamente ao seu lado e a incapacidade de se mover, a inércia que a prende onde está.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Clarissa - Capítulo I: A Saudade

Clarissa chegou em casa mais pensativa do que o normal. Pensa muito, conclui demais... até mais do que deveria. Quisera Clarissa pensasse menos, concluísse menos, talvez tudo fosse mais claro.
Mas ela tem melhorado. Tem se permitido sentir mais. Sentir a terra, sentir o vento, sentir o coração... Coração este que sempre revela tantas surpresas.

Abriu a porta e ligou a lâmpada, encostou-se no portal e depois a apagou, ligou novamente e tornou a apagar, outra vez e outra vez... e o olhar parado fitava um móvel qualquer da sala. Resolveu deixá-la ligada. A luz lhe fazia bem.

Hoje, ao chegar em casa tão pensativa, se jogou no sofá: pés para cima, mãos cruzadas atrás da cabeça. Fez um backup do seu dia, guardou as sensações boas, tirou as devidas lições das ruins e, como um astronauta solto no espaço, começou a pensar...

Sentia saudade dele. Do toque, das mãos no seu cabelo, do peito em que se afagava, do olhar triste, das poucas palavras proferidas, das perguntas instigantes, dos sonhos voláteis... Sentiu saudade dos momentos que estiveram juntos e sentiu ainda mais dos que não estiveram. Daqueles que gostaria de ter vivido. E esta segunda saudade fez uma lágrima rolar pelo canto do olho e escorrer até cair nos cabelos – agora curtos – esparramados pelo sofá.

A saudade lhe assolou de tal forma que ela pensou "e se eu ligasse e...", entretanto não conseguiu concluir. Sentiu que não seria capaz de dizer nada, porque o sentimento lhe tomava tanto a ponto de lhe bloquear o ar e, consequentemente, a voz. Quando se tratava dele e da saudade que arrebatava seu coração, a sensação era tão avassaladora que precisava sair daquele momento a todo custo. Então, pôs-se a lembrar de outros amores, para ver se alguma outra saudade concorria com a dele.

E foi lembrando, lembrando, lembrando e quando viu, já estava pensando no Lucas, o namoradinho da 4ª série. Céus! Como eram maravilhosos seus problemas da 4ª série! Daria tudo para ter um "relacionamento conturbado" como o que tinha com o Lucas, na 4ª série! E começou a rir. A estratégia de desfocar a saudade havia dado certo. Agora, punha-se a recordar - com saudade - a falta de problemas de quando tinha 10 anos. Sentiu saudade das cartinhas escritas em papéis decorados e perfumados e, por um lampejo, lembrou-se de todos os atuais SMS não respondidos. Saudade da balinha Freegell's de cereja deixada dentro do caderno na hora do recreio. Saudade dos longos minutos depois da aula conversando na pracinha perto de casa. Saudade daquele beijo tímido e rápido dado ao se despedir. 

A lembrança do beijo tímido e rápido do Lucas a trouxe de volta ao mundo, ao seu sofá. Nova lágrima voltou a rolar quando se lembrou do primeiro beijo que deram naquela festa. De como ele estava bonito e gentil naquele dia. E uma segunda lágrima escorreu em direção aos cabelos quando percebeu que não se recordava do último beijo que haviam dado um no outro. 

terça-feira, 15 de julho de 2014

Clarissa - a minissérie

Prólogo

A Lorota da Rosa lança-se numa nova experiência. A partir de hoje inicia-se uma minissérie no meu blog. 
Contarei nuances da vida de Clarissa. Faremos uma breve viagem ao interior de uma mulher prestes a completar 30 anos. Convido-o a conhecer seus medos, seus desejos e frustrações.
Clarissa, ao contrário do que o nome indica, não possui ideias claras. Tudo em sua vida é um amontoado que se embaraça com fios dispersos. Mas ela quer mudar e, quem sabe você amigo leitor, possa colaborar nessa história que está apenas começando.

Nasceu há 29 anos, numa cidade grande. Nunca conheceu o pai. A mãe lhe dizia que não valia a pena saber quem era. Que ele não prestava. E assim foi pela meninice, juventude e adultice: quando perguntavam sobre o pai, ela respondia apenas "não tenho". Não preciso nem destacar o que parece lógico: ela não se relacionava muito bem com homens. Nunca compreendeu como aquilo funcionava.

Na escola, nem aplicada, nem relapsa, apenas suficiente. Fazia o que lhe mandavam... nem mais, nem menos. A vida profissional repetia o comportamento do colégio... nem mais, nem menos. Ah, sim, claro! Nossa protagonista fez faculdade! Não fez medicina, não fez filosofia. Tornou-se farmacêutica, trabalhando detrás do balcão de uma farmácia por dias e dias e dias.

Não morava mais com a mãe, justamente por se parecer demais com ela. Não conseguiria conviver consigo duplamente. Uma Clarissa com todos seus devaneios, suposições e ideias obscuras já era demais. Por isso saiu de casa: por menos Clarissas num mesmo espaço.

Bem, feitas as devidas apresentações, resta-me convidá-lo mais uma vez a acompanhar o desfecho da minha minissérie em 5 capítulos. 

Prazer, Clarissa.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A menina do aparelho

Sou fotógrafa. O quê? Você não sabia, amigo leitor? A bem da verdade, há tempos que não nos falamos com periodicidade, certo? Perdoe-me a minha falha. Sim, amigo, estou me aventurando pelo mundo da fotografia e com ela, o mundo dos eventos. Casamentos, aniversários, formaturas... essas trivialidades únicas (trivial para quem trabalha nelas, únicas para quem as vivencia).

Mas meu rompante de escrever se deu agora, em que eu editava as fotos da festa de sábado passado. Vi a foto de uma adolescente de sorriso contido. Sabe aquele sorriso de boca fechada? Típico dos usuários de aparelhos ortodônticos? Pois é. Um sorriso contido é um pássaro que morre um pouco por dia dentro de uma gaiola. 

Durante a festa passei na mesa em que a moça estava sentada e pedi para tirar uma foto dela com a mãe. Como precavida fotógrafa que sou, tirei duas fotos seguidas (afim de evitar piscadelas). Em ambas ela sorriu sem mostrar os dentes. Detalhe: ela tem a boca grande, com lábios grossos. Não ficou legal. Agradeci e fui saindo, entretanto, não pude me conter e perguntei se ela usava aparelho. Ela afirmou. E me permiti um pouco mais de intimidade: "Você deveria sorrir de boca aberta. O aparelho faz parte dessa fase da sua vida e não adianta querer negar isso." A mãe dela concordou comigo. Virei as costas e fui fotografar outra mesa. 
Ao terminar as fotos e gracejos da mesa, a moça do aparelho me chama: "Moça, tira outra foto minha? Mudei de ideia. Vou sorrir." Fiquei muito feliz. Primeiro, por ela ter se permitido mudar de posicionamento. Segundo, por se lançar ao novo para ver como ficaria. E, por fim, por reconhecer que aquele é o MOMENTO dela, com aparelho. Você sorri e a vida sorri de volta.

Agora, estava justamente olhando as fotos da recepção, bem no início da festa, e ela não sorriu de boca aberta... A menina que registrei na entrada, certamente não é a mesma que saiu de lá.

domingo, 15 de junho de 2014

Ensimesmarse

Na canção "Nada por mim", do Kid Abelha, o sujeito queixoso reclama de um companheiro que não lhe retribui a dedicação empenhada e, portanto, ele tenta bater a real na outra pessoa e diz: "não vá pensando que eu sou seu".
Infelizmente, gostaria que minha vida fosse menos complexa nesse aspecto. Ora estou de um lado contracenando com uma pessoa que me desdenha, ora estou de outro partindo o coração de alguém que me quer bem. Por quê? Eu me pergunto, por quê? Pooorr quêêê????
Seria tão mais simples amar e ser amado na mesma proporção. Sem cobranças, sem incertezas, sem rusguinhas, sem a pessoa se sentir "fácil demais".
Pense comigo, nobre leitor, o quão bom seria se fôssemos programáveis. Sabe, quando você entra nesses ambientes automatizados em que basta dizer "luz ligar" e pluft! as luzes se acendem. Agora, imagine: "coração amar" e pronto. Deus, em sua infinita sabedoria, não quis nos poupar desse sofrimento do não controle das emoções e sentimentos. Por quê? Eu me pergunto, por quê? Pooorr quêêê????
Mas, ultimamente, tenho cogitado uma hipótese que pode dar certo. Não sei. É meio arriscada, maaass... Imaginei que eu posso simplesmente amar a mim mesma. Sim, canalizarei toda a atenção que possuo, todo o carinho, todas as ideias fantásticas e as darei a quem de fato as merece: eu. Outrossim, quem mais poderia me retribuir na mesma proporção todo afeto, respeito e amor? Esperar isso de outra pessoa que não seja eu seria por demais injusto, não é mesmo? Pois, apesar do meu egoísmo, compreendo que cada pessoa possui necessidades diferentes, tal como na canção.



quarta-feira, 4 de junho de 2014

Paradoxo

Já contei a vocês que tenho um fetiche por homens de All Star. Sim, homens. Não digo rapazes, meninos, crianças e, sim, homens. Aquele cara de seus 30 e poucos anos, que em vez daquele sapato preto sisudo calça um lindo tênis All Star cáqui ou preto. Não sei o real motivo. Fetiches são assim: inexplicáveis. 

Ontem descobri um novo. Homens de terno pilotando moto. Uau!!! Passou por mim e não pude deixar de segui-lo com os olhos até onde a vista alcançou. Enquanto eu o observava tecia pensamentos de mim para mim mesma dizendo: que lindo! que paradoxal! que postura! que irreverência! Era uma moto grande, talvez uma Honda Bros. O que aumentou ainda mais a imponência daquele homem de terno, com a gravata esvoaçante. Imaginei-o descendo da moto na porta do seu trabalho. Talvez um advogado, ou um representante comercial, ou um político... não importa! Na minha imaginação ele descia da moto, tirava o capacete e, ao mesmo tempo que retirava a pasta do compartimento na garupa da moto, guardava-o lá dentro. Passava a mão pelos cabelos, nem curtos, nem longos. Uma breve olhada no retrovisor. Ajeitava a gravata e adentrava.

Acho que meu interesse está no fato de não esperarmos que alguém de terno ande de moto. Engravatados andam de carro e quanto mais luxuoso o carro, maior o nosso (meu) descaso. É trivial um homem de terno pilotando um Azzera, por exemplo.

Está provado. Meu olhar sucumbe sempre ao inesperado. Não ao bizarro, mas ao estiloso. Aquele que se impõe, que chega e pá: cheguei!

domingo, 6 de abril de 2014

Ser mãe do Pedro

Ser mãe do Pedro é uma dádiva! São tantas histórias, tantos ensinamentos, tantos embates que me transformam todos os dias.
Cada coisinha bonitinha que ele faz, sinto vontade de congelar o tempo. Fotografar, filmar, gravar apenas não é o suficiente. Queria reviver a mesma emoção por várias vezes. Mas sentimentos são únicos, não é mesmo!? Só se sente o que sente apenas uma vez. Você pode ficar feliz com determinada circunstância, mas cada momento traz em si uma carga única que jamais será vivenciado de novo.
Gosto tanto de você, leãozinho...

quinta-feira, 27 de março de 2014

"Eu me remexo muito" ou "keep on moving"

Estava hoje a me recordar de quando escolhi o nome de meu filho.
Simpatizava com o nome Pedro e nas buscas por significado na internet deparei-me com a seguinte definição:
"Pedro
Origem Aramaica
Significado: Significa pedra. Sempre em busca da segurança, Pedro é um eterno inquieto. É perfeccionista e gentil por natureza, segue a sua intuição e sensibilidade, muito mais do que aparenta. Severo e reservado, tem os pés bem assentes na terra, racionalizando tudo, seja no trabalho ou na vida afetiva, de forma a alcançar posições firmes e relações estáveis. Desconfiado e hesitante no campo sentimental, opta mais pela razão do que pelo coração."


Atente bem para a expressão “eterno inquieto”. Passa despercebida, não é mesmo? Mas saiba você que se eu tivesse apenas uma palavra para nomear o comportamento do meu rebento, eu o chamaria exatamente de inquieto.
Não digo que meu filho seja hiperativo, mesmo porque não tenho conhecimentos para diagnosticar isso. Mas é um garoto adorável que está sempre a procura de algo novo.
A partir desse ponto comecei a refletir sobre pessoas estáticas. Pessoas que não se movem, não saem do lugar, não fazem a-b-s-o-l-u-t-a-m-e-n-t-e nada. São vegetais que apenas contemplam os dias passando diante de si.
Para quem não sabe aonde vai, qualquer lugar serve.
É isso, filho, continue inquieto. Traçando objetivos. Tome suas decisões e vá nelas até o fim! Mas se não quiser ir até o final, tudo bem, retorne e comece de novo. Mas esteja sempre em movimento, porque pessoas que não se movem, não deveriam sequer merecer ser gente!

sábado, 8 de março de 2014

A luz acabou

Destranquei a porta e teclei o interruptor da sala. A luz não se acendeu. Refiz o gesto três vezes e nem a minha insistência desesperada a fez mudar de ideia. A energia havia acabado, como já percebeu o atento amigo leitor. 
Fiquei frustrada.
Mas não me deixei abater. Peguei o celular no bolso e o liguei. Ah, celular... O que seria de mim sem você? Sempre tão presente, tão atencioso, tão, tão... tão necessário. Sua luminosidade me guiou até onde eu guardo as velas. E o fósforo? Onde estaria o fósforo? Uma vez que o fogo na minha casa provem somente do acendedor elétrico do fogão, nem me lembrava da última vez que havia pego um desses aqui em casa. Enfim, encontrei ambos e dei início à minha sessão romântica. Sim, porque não sei por que cargas d'água velas são sinônimo de romantismo! Então, iniciei a minha noite romântica comigo mesma.
Meu primeiro ato romântico à luz de velas foi tirar os tênis. Claro, porque é preciso liberdade nas noites românticas! Sentei-me no sofá e começou o devaneio.
Ao contrário do que possa imaginar o distinto leitor este post não é sobre velas ou romantismo e, sim, sobre expectativas. A todo momento, por mais que tentemos nos convencer que não, estamos criando expectativas. Há uma dificuldade em nós em lidar com aquilo que não é esperado ou a ausência do esperado. O simples fato corriqueiro de tentar acender a luz e não conseguir nos deixa frustrados. 
Isso porque estou falando de coisas do nosso cotidiano: não ter água no filtro, o carro não dar partida, uma blusa sem passar... Estamos todo o tempo expostos a não realizações e sabe o que é mais fabuloso quanto a isso? Nós sobrevivemos. O ser humano é dotado de incrível capacidade de superar frustrações, ao mesmo tempo que cria suas expectativas. 
Vem alguém e nos diz "não crie expectativas" e eu respondo "não há como, elas se criam sozinhas dentro de mim". Barata. Já viu alguém criar barata? Mas o fato é que em toda casa tem. Em algum lugar escondido há sempre uma baratinha. Assim são as expectativas. Você está sempre esperando que algo aconteça. A ligação do dia seguinte, o elogio após o jantar, o carinho após o sexo... Entretanto, lidamos com isso com toda elegância que as situações requerem. No meu caso, usei o celular. Paliativo, mas funcionou. O mundo não vai parar porque as coisas não acontecem do nosso modo. Continue criando suas baratinhas interiores, amigo leitor, mas aconselho que não as deixe te dominar.

domingo, 2 de março de 2014

Homens de pouca fé sucumbem ao anticristo

Gosto de ouvir o programa Missão Impossível da Jovem Pan. Ao ouvir as histórias contadas nele me sinto mais perto do senso comum e vejo que as pessoas têm enredos muito parecidos umas com as outras.

Os apresentadores são razoáveis e conseguem manter o público (no caso, eu) cativo durante todo o programa. Entretanto, a motivação do post de hoje não é o programa em si, e sim, uma frase que sempre repetem: o Facebook é o anticristo dos relacionamentos.

Uma estatística feita por um renomado instituto, o Any Paul Search and Research, aponta que de 10 términos de namoro pelo menos 5 são motivados pela rede social. Em segundo lugar, aparece o telefone celular com 30% dos casos. Acredita-se que com o crescimento estrondoso do uso do Whatsapp esse número poderá chegar a 45% do total.

Mas o fato é o seguinte, onde há vigília o pecado não entra! Amigos, aprendam a usar as redes sociais! Elas não são ruins. Ruins somos nós no quesito fazer coisa errada. Quer fazer coisas proibidas? Pois faça! Você tem o livre arbítrio. Mas ao fazer, trate de não ser pego. Sequer levante suspeitas, porque suspeitas serão investigadas. 

Então, por que dizem que o Facebook é o anticristo? Não é isso. Os usuários são pessoas de pouca fé. Acreditam realmente que nunca serão descobertos e subestimam a inteligência alheia. É nessa hora que o tinhoso se apodera! O sete peles sussurra no nosso ouvidinho: pra quê tanto álbum bloqueado no Facebook? e por que não posso ver sua lista de amigos? por que ele apaga as conversas do Whatsapp? quem fica mandando coisas pra ele a todo momento? e por
que ele não lê perto de mim? por que o celular dele tem código de bloqueio? e esses números sem  nome aqui, são de quem?

Neurótica, eu? Não. O Missão Impossível está aí para me mostrar que estou absolutamente dentro da normalidade.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Os 30 que mudaram a minha vida

A despeito do título já vou logo adiantando que ainda não sou uma balzaquiana e, portanto, os 30 que provocaram em mim uma mudança substancial não são os anos (estou próxima, mas ainda não cheguei lá). Também não são homens. Quem me dera tivesse histórias de 30 amores para contar. Mas se as tivesse já estaria com o sistema nervoso completamente comprometido. 

Os 30 aos quais me refiro e que representam um marco na minha breve existência são 30 reais. Sim, nobre leitor. Quantos 30 reais você e eu já gastamos não é mesmo? Com coisas necessárias e outras nem tanto. Mas hoje ao caminhar por uma calçada e ver várias apostilas de concurso enfileiradas em frente à banca lembrei-me desse investimento de 30 reais feito em 2004 ou 2005 e que hoje me rendeu tudo (em termos materiais) que eu tenho.

Decidi fazer o concurso para a Caixa Econômica Federal meio que no oba-oba. Todos os meus amigos estavam fazendo concurso e resolvi, meio que pra não ficar de fora, fazer também. Até então eu não tinha a menor noção de banco e/ou serviços bancários. A minha experiência em banco se resumia a uma conta que havia aberto para receber a bolsa da monitoria. 

Pois bem, diante daquela banca de revista em 2004 ou 2005 eu tinha três opções: uma apostila de 25 mangos, uma de 30 e outra de 35. Pensei com meus botões "vou pelo mediano, porque a mais barata deve ser fraquinha e se não der certo ao menos não investi muito". Comprei-a. Fui folheando a bichinha no ônibus, me afeiçoando àqueles termos esquisitos, resolvendo questões de português (que para mim eram as mais tranquilas) e em pouco tempo éramos como irmãs.

Estudava nas horas vagas. Não fui muito disciplinada, confesso. Todavia passar num concurso da Caixa há nove ou dez anos atrás era bem mais de boa do que atualmente. 

Enfim, fiz a prova com empenho. Verifiquei que havia passado na sala de internet (que na época era artigo de luxo) da UEG de Itapuranga. Sinceramente não esperava ser chamada, muito menos tão rápido. Comecei a trabalhar e tive de abdicar de muitas coisas por isso: algumas amizades, tempo para dedicar à faculdade, entre outras coisas. 

Hoje quando passei na banca de revista onde vendiam as apostilas, eu estava indo comprar uma roupa para o meu filho. Graças ao meu trabalho no banco consigo sair da minha casa própria, no meu próprio carro e comprar coisas para o meu filho que crio praticamente sozinha. 

Portanto, amigo leitor, você pode estar passando diante de uma grande oportunidade a qualquer momento. Uma decisão, por menor que seja, muda o curso de muita coisa e vai definir a sua vida por muito tempo. Não espere para começar a agir depois do carnaval.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Pequenos prazeres

Dormir ouvindo barulho de chuva.
Descalçar um sapato apertado.
Acordar assustada porque o relógio não despertou e se lembrar que é domingo.
Ouvir um eu te amo do filho inesperadamente.
Olhar um passarinho no jardim.
Tomar um banho quente em um dia frio.
Cantar no chuveiro bem alto.
Achar uma moedinha na rua.
Chupar picolé de cajá com sal.
Dormir de conchinha.

Garanto que seria capaz de listar muitos outros. 
Pequenos prazeres estão nos rodeando a todo momento e raramente os percebemos.
Estamos tão encanados nos grandes prazeres que esquecemos dos cotidianos. Carro novo, viagem pra praia, viagem pro exterior, casa grande, roupas de marca, lugares sofisticados, comida requintada, corpão da hora e tudo o mais!

Tenho tido o meu pequeno prazer especial. Voltei à minha infância e me recordo dos dias vividos no interior em que eu plantava e conversava com a plantinhas. Não tive outras crianças para brincar comigo, portanto, brincava sozinha no quintal. Observava se a Dona Passarinha estava cuidando direitinho dos seus ovinhos no ninho lá na parreira. Quanto tempo as formigas gastavam pra refazer o formigueiro que eu havia destruído. Tapava o buraco dos calangos só pra eles não terem como entrar em casa. A vida de interior, antes de vídeo games, tablets, computadores nos oferecia esse tempo livre para nos dedicar ao quintal e fico feliz em poder recuperar um pouco disso.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Posts

É curioso o ato de se expressar.
Quando criei o blog queria apenas escrever. Dizer o que penso, contar histórias, lorotar...
Mas hoje o blog é meio incômodo para mim, pois, as palavras uma vez lançadas não há como recolhê-las.
Estou passando por um hearthstorm (neologismo meu para brainstorm de sentimentos) e sequer posso escrever coisas sobre ele aqui, porque tudo que eu disser, poderá ser usado contra mim no tribunal. Mas são coisas fantásticas! Que não deveriam ficar presas em mim! Bem, na verdade, são fantásticas para mim, para outros podem ser fúteis, sinceras demais, óbvias, inescrupulosas, hipócritas... vai do lugar que cada leitor ocupa no contexto.
Por exemplo, numa situação hipotética de traição. O traído tem um ponto de vista revoltado, o traidor suas desculpas (esfarrapadas) e o puto (ou puta) o seu lugar de omissão, tipo, não tenho nada a ver com isso. Há parte da plateia que diz "ah, isso é normal" e outra parte dizendo "joga pedra na Geni".
Qualquer dos cinco lugares que eu ocupar e descrever a minha opinião sobre a situação, certamente estará constrangendo algum dos outros elementos envolvidos, principalmente se ainda houver qualquer vínculo entre eles. E vínculos não são como contratos de locação com prazo de vencimento. Vínculos se dissolvem com o tempo e as circunstâncias. Portanto, peço perdão aos amigos leitores pela omissão dos posts. Ideias e lorotas tenho aos montes, apenas não acho seguro dividi-las aqui. Façamos assim: marquemos um café, aí então te conto tudo que queira saber. Por ora, só assim.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Óculos pra que te quero?

Perdi meus óculos.
Para quem usa óculos sabe a tragédia que isso representa. Primeiro, um ultraje moral, porque é lamentável se precisar de uma ferramenta para suprir aquilo que naturalmente o seu corpo já não faz mais. Solidarizo-me com os usuários de muletas, bengalas, aparelhos auditivos e outros. A nossa completude está associada a um objeto e isso é triste. O outro lado é o fático: eu não enxergo sem óculos. Sim, sim, são apenas dois graus de miopia, mas para mim representa muito! Sair sem óculos? Nem pensar! Já tenho fama de metida enxergando as pessoas, se não vê-las então, tô lascada! Sem falar da agonia de ver tudo embaçado, desfocado, tremido, borrado... como preferir. 
Comecei a escrever esse post por uma situação engraçada: coloquei meu óculos em algum lugar, mas não me lembro onde. Não enxergo de longe o suficiente para ver se está em cima da cama, ou da pia, ou do sofá e, portanto, saio tateando os móveis. Que tristeza, meu Deus! Uma jovem de 28 anos tateando móveis... Fazer o quê? Sentar na frente do computador e começar a escrever até se recordar de onde o colocou. Nem preciso dizer que não deu certo. Pois do momento em que comecei a escrever até agora nenhuma lembrança me veio à mente.
Seria cômico se ele estivesse no meu cabelo, mas já verifiquei... Não foi dessa vez que fiz papel de louca de novo! Sim, sim! Inúmeras vezes procurei o óculos bem acima da minha cabeça, pendurado na blusa, enfim... Também já entrei para o chuveiro com ele. Já o deixei cair enquanto andava e o chutei sem querer. Dormi em cima. 
Não acho óculos charmoso. Há quem goste de usá-lo, mas para mim é um estorvo. Os modelos retrô também não me apetecem. Como não gosto, obviamente prefiro os mais discretos. Agora, imagine, como pode uma pessoa que não tem a menor afeição por um objeto ser tão dependente dele? Reitero o que disse no começo, isso é ultrajante.
Bem, o desabafo está ótimo, mas eu preciso ir andando. Como não me lembrei onde o coloquei, vou ali tatear mais algumas coisas... quem sabe.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Rescisão contratual

No ano passado manifestei o meu desejo de me demitir de algumas coisas.
Continuo com o mesmo desejo.
Ando cansada dos extremos. Pessoas radicais demais em suas opiniões não andam me interessando muito... nem aquelas que as trocam com se tirasse uma peça de roupa. Sentimentos pegajosos demais são enfadonhos... a falta deles me angustia. Trabalho complexo demais me torra os neurônios... já o simples me entedia. A fala alta me irrita... a baixa também...

sábado, 11 de janeiro de 2014

Quão profundo é o seu amor?

O assunto casamento é recorrente neste blog. Talvez eu possa parecer a raposa desdenhando as uvas, dizendo que estão verdes e tal... Mas a verdade é que o casamento é algo que vejo cada dia com olhinhos mais céticos e distantes.
Se eu disser que não quero casar de jeito nenhum, obviamente estarei mentindo. Sou adepta do novo e quase tudo que ainda não experimentei desperta em mim certa dose de curiosidade. Todavia, vejo o matrimônio como algo difícil de ser realizado. Não pela minha idade, porque vejo gente de todas as idades se casando todos os dias e graças ao bom Santo Antônio, idade não é mais fator determinante para ninguém. Também não é o fato de ter meu filho, que como bem diz o pronome possessivo, é MEU e não seria incumbência nem estorvo para um eventual marido. Possivelmente um fator impactante para o não casamento seria a indisponibilidade masculina. Os homens não querem se casar. Mas isso é assunto para outro post. Hoje eu quero falar mesmo é do raro momento em que eu tenho muita, digo, muita vontade de me casar.
Sempre que ouço "How deep is your love" bate um desejo profundo de me casar só para dançar essa música na festa. Bobo? Pueril? Insignificante perto de tudo que representa um casamento? Sim, confesso. E nem ouso dizer o contrário. Lamento decepcioná-los mas, sim, eu sou romântica como o horóscopo diz que sou e tenho as minhas futilidades. Quem nunca dançou bolero com a pessoa amada não vai me compreender. O quêêêêê??? Você nunca dançou bolero? Não acredito! Tudo bem. Eu nunca dancei com uma pessoa amada também...
Bem, não sei exatamente o porquê mas essa música me toca e me faz acreditar em momentos melhores, em amores sinceros e profundos e pessoas que nos queiram sempre por perto. Enfim, que me contemple com a graça de dizer o quão profundo é o seu amor.