domingo, 22 de setembro de 2013

Domingão

Querido diário,

Hoje foi um dia intenso.
Tão intenso que estou com preguiça de contá-lo.
Fica pra amanhã.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

Garupa

Hoje senti saudade.
Sabe, aquele misto de coisa boa com coisa ruim - tipo soro caseiro, que mistura sal com açúcar - que vem no peito de vez em quando ao lembrarmos de alguém ou de alguma situação.
Saudade pra mim é isso: fico feliz por ter vivido e convivido, mas fico triste porque não vou viver e conviver novamente... não sob as mesmas circunstâncias.

Lembrei da garupa da bicicleta Monark dourada ano 85 do meu pai.

Papai me levava todos os dias para a escola montada na bicicleta. Ele, marceneiro, fichado na Prefeitura Municipal de Itapuranga, pai de filha única. Bom pai. Eu, aluna da Escola Estadual Joaquim da Silva Moreira, pasta amarela debaixo do braço, material escolar barato (mas organizado), camiseta da escola e saia azul plissada. Menina chorona.

Sentada na garupa da bicicleta dourada ainda lembro dos comandos:
-Abra bem as pernas. Cuidado pra não por o pé no raio.
-Segura pra não cair pra trás.
-Desça só quando a bicicleta parar.

Meu pai é um homem pesado e o selim de mola - desses que nem se usa mais - chorava triste a cada pedalada. E sempre que o selim furava, era mandando para a tapeçaria para um novo forro e outra espuma.
Cortamos muitas ruas de Itapuranga, meu pai pedalando e eu na garupa. Cumprimentávamos pessoas, parávamos para conversar, íamos ao supermercado, açougue, padaria... roubo ou estacionamento nunca foi um problema naquela nossa vidinha pacata com a Monark.

Quando saia da escola, meu pai já estava no portão me esperando, sentado na bicicleta debaixo da sombra da árvore. Uma lágrima corre do meu olho. É a saudade que falei logo acima me importunando mais uma vez.

Meu filho nunca saberá a sensação de ser pego pelo pai na porta da escola com um Monarkão dourado do mesmo ano do seu nascimento, mesmo porque não fabricam mais bicicletas como antigamente. Bicicletas familiares, daquelas que suportavam uma criança na barra, o pai no selim e a mãe na garupa com outro filho. Também não fabricam mais pessoas com tanta disposição para pedalar e carregar as outras como o meu papai.

Talvez meu filho daqui algumas décadas tenha saudade do tempo em que os pais se apinhavam nos portões das escolas, em seus carros novos com ar-condicionado, impedindo o trânsito e estressados porque precisavam voltar ao trabalho. Talvez...


Perdão

Quantas vezes devemos perdoar?
Não quero o clichê bíblico de 490 vezes, esse já está demodè...
Pode deixar que eu mesma respondo.
Resposta:
Depende.
Se for eu ou você que tivermos de perdoar alguém, que seja o mínimo de vezes necessário, porque afinal, não toleramos erros. As pessoas que erram são incompetentes, descuidadas ou até burras! Portanto, nem ouse contar com o nosso perdão, pois preferimos soltá-lo a conta-gotas.
Agooooraa...
Se quem estiver pedindo perdão for eu, aí sim ele deve ser concedido inúmeras vezes... quantas forem necessárias... perdões a perder de vista.

Para quem me conhece pouco, poderá interpretar esse texto como sendo presunçoso e hipócrita. Perdoe-me, mas não o é. Estou aqui reconhecendo o quanto somos exigentes com as pessoas que nos rodeiam e que o grau de exigência simplesmente despenca para quase zero quando se trata de nós mesmos.

Andam muito decepcionada com as pessoas que me julgam sem conhecer meus motivos, sem perguntar pelos meus sentimentos e hoje me peguei fazendo a mesma coisa ao dizer para mim mesma "nunca mais volto nessa loja". Não quer dizer que o vendedor, que hoje não me agradou, será para sempre daquele jeito. E as outras vezes que ele me atendeu bem? Não valeram de nada? E a minha história de vida? Não diz nada sobre mim? Não me faz perdoar com a mesma intensidade que gostaria de ser perdoada?

Pena que esses insights de realidade não permaneçam modo on a todo momento...

domingo, 15 de setembro de 2013

Nota de 10

Depois de fazer mais uma de suas proezas, Pedro solta:
-Gostou, mamãe?
-Ah, adorei! Você é um filhinho nota 10!
-Nota de dez, mamãe?

Pense só: meu filho não sabe o que é uma nota 10, porque ainda não vai à escola. Entretanto, uma nota de dez ele sabe muito bem para que serve.

domingo, 8 de setembro de 2013

sábado, 7 de setembro de 2013

Solta a vida e empina a pipa

Mês que vem farei 28 anos.
Já andei a cavalo. 
Já beijei namoradinho no portão.
Pesquei traíra em córrego.
Mas nunca tive um cão, nem andei de patins.
Hoje, faltando pouco mais de um mês para completar 28 anos, eu soltei pipa.
Nunca havia empinado uma pipa na minha vida. Sequer tinha lido um livro para aprender a técnica para colocá-la no ar e fazê-la subir - sim, porque muitas coisas não conhecemos na prática, mas somos doutores em teoria.

Entretanto, ser mãe solteira nos faz ficar expertes em papéis duplos. Não que eu esteja dizendo que uma mãe não possa soltar pipa com o filho (tanto que assim o fiz), mas se meu filho tivesse um pai presente com certeza eu delegaria essa função a ele. Ser mãe é desdobrar. É pagar um mico em troca de um sorriso. É poder ter o orgulho de dizer que daquela memória, eu fiz parte.

Enquanto eu ia pelejando com aquela coisa e a cada metro que ela subia, eu me sentia um pouquinho mais feliz e realizada. Comecei a fazer comparações com a vida e concluí que, assim como a pipa, o mais difícil é subir e chegar ao topo torna-se consequência. Depois basta que façamos movimentos constantes, para não permitir que ela caia, sem jamais esquecer que há uma linha que a liga à sua origem e que em algum momento ela terá de retornar. Divagos.

Felizes são as crianças, que quando perguntamos porque ela gosta de soltar pipa, simplesmente respondem "porque é bom". Simples. Enquanto eu, adulta de 27 anos, fico presa a comparações e analogias com a vida. Essa adultice a qual me refiro parece uma nhaca! Talvez precisemos praticar e praticar e praticar criancices horas e dias a fio até sermos capazes de soltar pipa apenas porque é bom.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Discutindo religiosidade

Ontem me senti muito despreparada religiosamente para ensinar qualquer conceito religioso ao meu filho. Voltávamos de um passeio e Pedro vinha resmungando pelo caminho, como habitualmente o faz quando algo não sai do seu agrado.
-Papai do Céu, eu quero que você ponha todos os meus amiguinhos de castigo porque eles estavam brincando com os meus brinquedos...
-Que que foi, meu filho?
-Nada, não, mãe. Tô falando com Papai do Céu.
-Tá pedindo chuva pra nós?
-Não. Tô falando pra ele colocar meus amiguinhos de castigo porque eles estavam brincando com as minhas coisas. Mãe, como é que o Papai do Céu põe a gente de castigo?
(engoli seco)
-Uai, meu filho. Acontece algo pra gente que a gente fica triste. Isso pode ser um castigo do Papai do Céu. Tipo, se você não deixa seus amiguinhos brincarem com seus brinquedos, aí um deles quebra. Isso é castigo porque você não dividiu.
-Se Papai do Céu quebrar um brinquedo meu, eu falo pros anjinhos lá no Céu botarem Ele de castigo!
-Mas ninguém castiga Papai do Céu, porque ele é mais poderoso que todo mundo. Ele é dono de tudo que tem na Terra. Ele vê tudo que todo mundo tá fazendo.
-É?? E como Ele vê as coisas lá do Céu?
-Ele olha aqui pra nós e vê o que cada um está fazendo.
-E como Ele vê debaixo do telhado?
(engoli um rolo de arame farpado)
-Pro Papai do Céu não existe telhado, nem parede, nadinha. Ele vê todos os lugares.
-Mas como ele vê debaixo do telhaaado?? 
Percebi que minha resposta genérica não o havia convencido e que eu precisaria ir um pouquinho adiante. Todavia, a essa hora eu só queria sair dessa conversa religiosa complicada.
-Sabe quando você olha no vidro e consegue ver do outro lado? Pra Papai do Céu é assim: tudo é transparente. Os telhados e as paredes são como se fossem de vidro. Aí ele consegue enxergar todas as coisas, em todos os lugares.
-É, mamãe?? 
-É, filho.

Finalmente encerramos a conversa, mas eu não fiquei feliz. Sei que ele retomará esse assunto. Senti-me completamente despreparada para lidar com um assunto tão subjetivo quanto a religiosidade com uma criança que ainda não tem esses conceitos muito claros em si. Todavia, carrego comigo a certeza que fiz o melhor que pude naquele momento e, talvez noutra oportunidade, eu possa fazer melhor.

domingo, 1 de setembro de 2013

Quem tem olhos, veja

Leitor amigo, você já se sentiu pequeno? Bem pequeno mesmo? Minúsculo? E olhou para as outras pessoas e as viu gigantes, enormes, assustadoramente grandes?
Não, eu não estou me sentindo assim. Mas gostaria muito de saber qual a perspectiva que os "gigantes" têm dos seres minúsculos lá embaixo. Conheço tantas pessoas que se acham maiores do que outras... Tantas pessoas que se pensam superiores... Às vezes, me embrulha o estômago pensar que alguns seres não conseguem sequer olhar para seus próprios defeitos e admiti-los simplesmente por estarem ocupados demais procurando as imperfeições das outras pessoas.

Há algumas semanas atrás uma vendedora me disse que eu tinha uma energia boa. Vejam só! Uma mulher que nunca me viu na vida conseguiu captar minha energia - e, sim, ela é boa, posso garantir isso. Posso ter defeitos, umas amargurazinhas, uns ressentimentos, mas no geral... sou uma pessoa do bem. Todavia, alguns  gostam de me denegrir. Por mais que tenham convivido comigo, fazem questão de ressaltar e propagar aquilo que há de pior em mim. Obrigada pela indiferença. Obrigada pela distância. Deve ser o meu círculo energético me repelindo de pessoas como vocês.

Devo também um agradecimento especial àqueles que não falam mal de mim, mas me tratam mal. Muito obrigada. Graças a vocês tenho aprendido a lidar na vida, separar as boas sementes e plantar apenas o que poderá gerar frutos. Talvez, podar. Não me preocupo com quantidades. Volume é só volume.